+ Entrevista
Matilde Matos
- Uma das curadoras do Mercado cultural 2005
- Curadora da EBEC Galeria de Arte
- Curadora de Diversos eventos ligados às Artes Visuais
- A primeira a apoiar o Projeto Oficina HQ, com as oficinas e Exposições de Quadrinhos ou de desenhos ligados ao tema.

Os Prêmios ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte) são os mais importantes do país na área de artes plásticas. Primeiro, são indicados nomes para as dez categorias, por 146 sócios. Os mais votados compõem uma lista tríplice que é enviada a todos os associados para a segunda votação. Num outro momento, em assembléia geral, é feita a apuração e aprovados os vencedores.





Entrevista em 09/2006 por Wilton Bernardo

Existem homenagens especiais e destaques. Este ano a Bahia recebeu duas homenagens: Matilde Matos e Franz Krajcberg, pelo conjunto da obra. A ABCA foi fundada em 1949, ligada à Aica, surgida em 1948, em Paris, como uma ONG. Anualmente, a associação reconhece os destaques do ano anterior, com o Prêmio ABCA.

Matilde Matos/BA - Curadora, ensaísta e crítica de arte, assina coluna de artes plásticas desde 1970. Participou da XII, XIII e da XIV Bienal Internacional de São Paulo com a transcrição escrita do Grupo Etsedron - Prêmio Governador do Estado (1974). Fez dezenas de apresentações para catálogos, muitas reunidas na publicação 100 Artistas da Bahia.

ENTREVISTA

01)
Oficina HQ: Dona Matilde, a senhora é responsável por uma das mais conceituadas escolas de inglês da cidade de Salvador. Foi uma das fundadoras e ainda conseguiu se tornar uma das mais importantes críticas de arte do Brasil. Como foi desenvolver essas atividades já que as 2 coisas aconteceram ao longo do mesmo tempo?

Matilde Matos: Éramos três sócias na EBEC e os trabalhos se complementavam. Quando a abrimos em 60, já tinha coluna assinada no Jornal da Bahia e tanto gostava do que fazíamos na criação do método e de dar aulas, quanto de escrever e da convivência com alunos, professores, jornalistas, leitores. Nem encarava como trabalho: no jornal queria melhorar a escrita, e na Ebec a meta das três sócias era tornar o ensino do inglês mais eficiente. Sempre desenvolvi as duas atividades com prazer.


Matilde Matos, entre sua filha Claudine Toulier(Diretora de Marketing
da EBEC) e a atriz Nilda Spencer

02) Oficina HQ: Em setembro de 2003 a primeira apresentação do Projeto “Oficinas de Quadrinhos” foi feita pela senhora, através da EBEC Galeria de Arte porque eu sabia que pra apoiar a iniciativa, teria que ser alguém que realmente tivesse sensibilidade e visão. A senhora apoiou tanto as Oficinas como as nossas Exposições de Quadrinhos. Estamos no século XXI e os quadrinhos tem penetração e receptividade variada de acordo com estados e/ou países. Na Bahia, estamos amadurecendo a idéia de produção e reconhecimento dessa arte.
Seu comentário sobre essa arte será muito significativo para tudo isso, bem como o apoio que a senhora tem dado às iniciativas ao longo dos quase 3 anos do projeto. (por favor comente sobre os Quadrinhos)

Matilde Matos:
Não conheço ninguém que se dedique de coração à leitura, à escrita ou ao desenho, que não tenha passado pelos Quadrinhos, a arte que está mais próxima da criança, atraída pela autenticidade das linguagens visual e escrita sem qualquer preconceito elitista. A tradicional rebeldia adolescente e o humor maduro se regalam na critica sarcástica, no uso da linguagem e gírias populares e atuais, na figura do herói e na eterna luta do bem contra o mal , num mundo cada vez mais cheio de violência.
Juarez Paraíso aos nove anos já fazia sucesso ampliando a figura d’O Espírito, e confessa ter aprendido o que é desenhar com Hogarth, Raymond e Eisner. Quadrinistas talentosos seguramente tiveram influencia na evolução das artes plásticas, e vice-versa. Ninguém provocou tantas mudanças no modo de vida, no visual, na própria economia instituindo os parques recreativos, como Walt Disney, o americano que teve maior projeção no mundo inteiro. Quer mais?

03) Oficina HQ: Mário Cravo, Bel Borba, Fernando Oberlander, Justino Marinho.... a lista de artista admiradores é grande. Competência, neutralidade e visão contemporânea são algumas de suas qualidades como crítica, ressaltadas por diversos artistas. Como é a atividade do crítico? Conta um pouco sobre essa atividade, de como faz pra analisar e escrever sobre o trabalho de algum artista.

Matilde Matos:
A arma do critico é a mesma do artista: a percepção. O estudo é essencial pra se entender a evolução e saber quem é quem no passado e presente. Saber escrever também é. O jornal me obrigou a melhorar a síntese que era da minha natureza; os artistas me ensinaram tudo mais. São eles que criam os trabalhos, nós passamos o que eles fazem para a linguagem escrita, e então os interpretamos de acordo com nossa visão e o que sabemos do assunto.
Passei a escrever só sobre arte a partir de 70, quando traduzi em letra de forma o trabalho do Grupo ETSEDRON (avesso da palavra nordeste) de Edison da Luz: imensas instalações (quando o termo ainda nem entrara em uso) feitas de taipa, cipó, chifre, couro cru,objetos populares, armadas sobre a terra e envolvendo música e dança, que conquistou prêmio na Bienal de S. Paulo e provocou mudanças na arte brasileira. Acompanhar o Etsedron da idéia inicial ao seu desenvolvimento, foi a melhor escola de arte brasileira contemporânea que poderia ter. Quando vejo hoje um artista colocar uma gilete num copo e achar que está fazendo arte contemporânea, eu acho graça.


Wilton Bernardo, Claudine Toulier e Matilde Matos

04) Oficina HQ: Este ano (2006) a Bahia teve 2 homenagens: pela ABCA, e da Associação Internacional de Críticos de Arte. A senhora foi uma das homenageadas. É importante para os artistas ter pessoas sérias e competentes escrevendo sobre seu trabalho. (por favor comente algo sobre isso)

Matilde Matos:
Facilita um pouco a aceitação em galerias, salões, museus – que não seja o MAM, esse se citar meu nome ele não entra - e conseqüente divulgação. Importante pra mim é quando o artista me diz que vi alguma coisa no trabalho dele que mudou sua linha para melhor, ou até quando agradece por alguma critica que fiz. É outro olhar, além do dele, que pode ajudar, ou não. De qualquer forma, importa para o currículo do artista.

05) Oficina HQ: Uma pergunta que pode parecer ingênua mas com certeza muita gente tem vontade de fazer: É possível se esclarecer o que faz ou não uma pintura ou outro “objeto” ser considerado ou não como arte? O conceito é importante?

Matilde Matos:
Como aconteceu nas outras profissões, o papel do artista plástico ampliou-se: hoje valoriza-se a sua percepção que se aplica a quase tudo que envolva o visual, daí os cargos de ‘direção artística’. Ele revela sua percepção não só desenvolvendo uma das técnicas da arte, mas no modo como usa objetos prontos, palavras escritas, fotos, produtos da natureza, luz, cor, água, qualquer coisa para expressar seja idéia, sentimento, critica, queixa, engajamento, o que for. Mas que sua intenção fique clara ao espectador, ou não passa de idiotice.
O que referenda o artista é a ressonância que pode ou não acontecer depois da exposição do seu trabalho ao publico, geralmente em salões, e quem sedimenta sua carreira é o olho do colecionador, são os clientes através dos marchands, passando pela critica e exposto à mídia.. Até chegar a isso ele não passa de diletante.

06) Oficina HQ: Em alguma época, a senhora já foi leitora de quadrinhos?

Matilde Matos:
Claro, né ?. No meu tempo, se começava pelo Tico-Tico, com Reco-Reco, Bolão e Azeitona, passava-se aos Guris e Gibis, a atração de imagens como a do Príncipe Submarino ia alicerçando o habito da leitura.. O prazer de ler se descobria nas reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Daí para os tarzãs de Edgard Rice Burrough, o Scherlock de Canon Doyle e os policiais de Sax Rohmer, era só um pulo.. O discernimento chegava depois. Quando terminei ginásio e colégio já lera dos meus preferidos Eça de Queiroz, Voltaire e Bernard Shaw, a `Proust e Dostoievsky, passando por todo mundo até Joyce e Kafka. Como brasileira fanática que sou, o mulato do morro do Livramento ( Machado de Assis) superou todos na minha admiração, dividida muito depois com o grande Guimarães Rosa. Depois dele só o realismo mágico de Garcia Marques, Rulfo, Cotazar e a fantasia inculcada na realidade do Sul dos States de Truman Capote, apontando depois um novo caminho ainda não desenvolvido no genial A Sangue Frio. Talvez nunca tivesse chegado a eles se não fosse pelos quadrinhos que alicerçaram minha paixão pela leitura..

07) Oficina HQ: A senhora está trabalhando em algum projeto ligado à arte atualmente ?

Matilde Matos:
Quase tudo que faço hoje é decorrente do trabalho na EBEC Galeria de Arte, onde faço curadoria, montagem e textos de cada exposição, na linha de divulgar artistas de renome ou não, sem preconceitos. Minha filha Claudine Toulier cuida de tudo mais que a produção e divulgação envolvem. Não paro de ver trabalhos novos de artistas iniciantes aos mais conhecidos, o que sempre me dá prazer, e.escrever apresentações para convites, catálogos, livros. Sinto falta do tempo que tinha para a literatura, hoje só leio revistas, jornais e o que surge mais interessante sobre arte.

08) Oficina HQ:
Obrigado pela entrevista. Pra finalizar, a senhora quer mandar algum recado para os internautas que querem trabalhar com artes visuais, principalmente os que querem trabalhar com Quadrinhos?


Matilde Matos:
Os artistas plásticos baianos estão se virando muito bem, alguns já participaram de salões e tiraram até prêmios no México, Espanha e lugares exóticos como Bulgária e Cracovia. Para os artistas quadrinistas cujas imagens se lê melhor na telinha, deve ser mais fácil. É so descobrir algum e.mail e começar.



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