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Existem
homenagens especiais e destaques. Este ano a Bahia recebeu duas
homenagens: Matilde Matos e Franz Krajcberg, pelo conjunto da obra.
A ABCA foi fundada em 1949, ligada à Aica, surgida em 1948,
em Paris, como uma ONG. Anualmente, a associação reconhece
os destaques do ano anterior, com o Prêmio ABCA.
Matilde
Matos/BA - Curadora, ensaísta e crítica de arte, assina
coluna de artes plásticas desde 1970. Participou da XII,
XIII e da XIV Bienal Internacional de São Paulo com a transcrição
escrita do Grupo Etsedron - Prêmio Governador do Estado (1974).
Fez dezenas de apresentações para catálogos,
muitas reunidas na publicação 100 Artistas da Bahia.
ENTREVISTA
01) Oficina HQ: Dona Matilde, a senhora
é responsável por uma das mais conceituadas escolas
de inglês da cidade de Salvador. Foi uma das fundadoras e
ainda conseguiu se tornar uma das mais importantes críticas
de arte do Brasil. Como foi desenvolver essas atividades já
que as 2 coisas aconteceram ao longo do mesmo tempo?
Matilde
Matos:
Éramos três sócias na EBEC e os trabalhos se
complementavam. Quando a abrimos em 60, já tinha coluna assinada
no Jornal da Bahia e tanto gostava do que fazíamos na criação
do método e de dar aulas, quanto de escrever e da convivência
com alunos, professores, jornalistas, leitores. Nem encarava como
trabalho: no jornal queria melhorar a escrita, e na Ebec a meta
das três sócias era tornar o ensino do inglês
mais eficiente. Sempre desenvolvi as duas atividades com prazer.

Matilde Matos, entre sua filha Claudine Toulier(Diretora de Marketing
da EBEC) e a atriz Nilda Spencer
02) Oficina HQ: Em setembro de
2003 a primeira apresentação do Projeto “Oficinas
de Quadrinhos” foi feita pela senhora, através da EBEC
Galeria de Arte porque eu sabia que pra apoiar a iniciativa, teria
que ser alguém que realmente tivesse sensibilidade e visão.
A senhora apoiou tanto as Oficinas como as nossas Exposições
de Quadrinhos. Estamos no século XXI e os quadrinhos tem
penetração e receptividade variada de acordo com estados
e/ou países. Na Bahia, estamos amadurecendo a idéia
de produção e reconhecimento dessa arte.
Seu comentário sobre essa arte será muito significativo
para tudo isso, bem como o apoio que a senhora tem dado às
iniciativas ao longo dos quase 3 anos do projeto. (por favor comente
sobre os Quadrinhos)
Matilde Matos:
Não conheço ninguém que se dedique de coração
à leitura, à escrita ou ao desenho, que não
tenha passado pelos Quadrinhos, a arte que está mais próxima
da criança, atraída pela autenticidade das linguagens
visual e escrita sem qualquer preconceito elitista. A tradicional
rebeldia adolescente e o humor maduro se regalam na critica sarcástica,
no uso da linguagem e gírias populares e atuais, na figura
do herói e na eterna luta do bem contra o mal , num mundo
cada vez mais cheio de violência.
Juarez Paraíso aos nove anos já fazia sucesso ampliando
a figura d’O Espírito, e confessa ter aprendido o que
é desenhar com Hogarth, Raymond e Eisner. Quadrinistas talentosos
seguramente tiveram influencia na evolução das artes
plásticas, e vice-versa. Ninguém provocou tantas mudanças
no modo de vida, no visual, na própria economia instituindo
os parques recreativos, como Walt Disney, o americano que teve maior
projeção no mundo inteiro. Quer mais?
03) Oficina HQ: Mário Cravo,
Bel Borba, Fernando Oberlander, Justino Marinho.... a lista de artista
admiradores é grande. Competência, neutralidade e visão
contemporânea são algumas de suas qualidades como crítica,
ressaltadas por diversos artistas. Como é a atividade do
crítico? Conta um pouco sobre essa atividade, de como faz
pra analisar e escrever sobre o trabalho de algum artista.
Matilde Matos:
A arma do critico é a mesma do artista: a percepção.
O estudo é essencial pra se entender a evolução
e saber quem é quem no passado e presente. Saber escrever
também é. O jornal me obrigou a melhorar a síntese
que era da minha natureza; os artistas me ensinaram tudo mais. São
eles que criam os trabalhos, nós passamos o que eles fazem
para a linguagem escrita, e então os interpretamos de acordo
com nossa visão e o que sabemos do assunto.
Passei a escrever só sobre arte a partir de 70, quando traduzi
em letra de forma o trabalho do Grupo ETSEDRON (avesso da palavra
nordeste) de Edison da Luz: imensas instalações (quando
o termo ainda nem entrara em uso) feitas de taipa, cipó,
chifre, couro cru,objetos populares, armadas sobre a terra e envolvendo
música e dança, que conquistou prêmio na Bienal
de S. Paulo e provocou mudanças na arte brasileira. Acompanhar
o Etsedron da idéia inicial ao seu desenvolvimento, foi a
melhor escola de arte brasileira contemporânea que poderia
ter. Quando vejo hoje um artista colocar uma gilete num copo e achar
que está fazendo arte contemporânea, eu acho graça.
Wilton Bernardo, Claudine Toulier e Matilde Matos
04)
Oficina HQ: Este ano (2006) a Bahia teve 2 homenagens:
pela ABCA, e da Associação Internacional de Críticos
de Arte. A senhora foi uma das homenageadas. É importante
para os artistas ter pessoas sérias e competentes escrevendo
sobre seu trabalho. (por favor comente algo sobre isso)
Matilde Matos:
Facilita um pouco a aceitação em galerias, salões,
museus – que não seja o MAM, esse se citar meu nome
ele não entra - e conseqüente divulgação.
Importante pra mim é quando o artista me diz que vi alguma
coisa no trabalho dele que mudou sua linha para melhor, ou até
quando agradece por alguma critica que fiz. É outro olhar,
além do dele, que pode ajudar, ou não. De qualquer
forma, importa para o currículo do artista.
05)
Oficina HQ: Uma pergunta que pode parecer ingênua
mas com certeza muita gente tem vontade de fazer: É possível
se esclarecer o que faz ou não uma pintura ou outro “objeto”
ser considerado ou não como arte? O conceito é importante?
Matilde Matos:
Como aconteceu nas outras profissões, o papel do artista
plástico ampliou-se: hoje valoriza-se a sua percepção
que se aplica a quase tudo que envolva o visual, daí os cargos
de ‘direção artística’. Ele revela
sua percepção não só desenvolvendo uma
das técnicas da arte, mas no modo como usa objetos prontos,
palavras escritas, fotos, produtos da natureza, luz, cor, água,
qualquer coisa para expressar seja idéia, sentimento, critica,
queixa, engajamento, o que for. Mas que sua intenção
fique clara ao espectador, ou não passa de idiotice.
O que referenda o artista é a ressonância que pode
ou não acontecer depois da exposição do seu
trabalho ao publico, geralmente em salões, e quem sedimenta
sua carreira é o olho do colecionador, são os clientes
através dos marchands, passando pela critica e exposto à
mídia.. Até chegar a isso ele não passa de
diletante.
06)
Oficina HQ: Em alguma época, a senhora já
foi leitora de quadrinhos?
Matilde Matos:
Claro, né ?. No meu tempo, se começava pelo Tico-Tico,
com Reco-Reco, Bolão e Azeitona, passava-se aos Guris e Gibis,
a atração de imagens como a do Príncipe Submarino
ia alicerçando o habito da leitura.. O prazer de ler se descobria
nas reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Daí
para os tarzãs de Edgard Rice Burrough, o Scherlock de Canon
Doyle e os policiais de Sax Rohmer, era só um pulo.. O discernimento
chegava depois. Quando terminei ginásio e colégio
já lera dos meus preferidos Eça de Queiroz, Voltaire
e Bernard Shaw, a `Proust e Dostoievsky, passando por todo mundo
até Joyce e Kafka. Como brasileira fanática que sou,
o mulato do morro do Livramento ( Machado de Assis) superou todos
na minha admiração, dividida muito depois com o grande
Guimarães Rosa. Depois dele só o realismo mágico
de Garcia Marques, Rulfo, Cotazar e a fantasia inculcada na realidade
do Sul dos States de Truman Capote, apontando depois um novo caminho
ainda não desenvolvido no genial A Sangue Frio. Talvez nunca
tivesse chegado a eles se não fosse pelos quadrinhos que
alicerçaram minha paixão pela leitura..
07)
Oficina HQ: A senhora está trabalhando em
algum projeto ligado à arte atualmente ?
Matilde Matos:
Quase tudo que faço hoje é decorrente do trabalho
na EBEC Galeria de Arte, onde faço curadoria, montagem e
textos de cada exposição, na linha de divulgar artistas
de renome ou não, sem preconceitos. Minha filha Claudine
Toulier cuida de tudo mais que a produção e divulgação
envolvem. Não paro de ver trabalhos novos de artistas iniciantes
aos mais conhecidos, o que sempre me dá prazer, e.escrever
apresentações para convites, catálogos, livros.
Sinto falta do tempo que tinha para a literatura, hoje só
leio revistas, jornais e o que surge mais interessante sobre arte.
08) Oficina HQ: Obrigado
pela entrevista. Pra finalizar, a senhora quer mandar algum recado
para os internautas que querem trabalhar com artes visuais, principalmente
os que querem trabalhar com Quadrinhos?
Matilde Matos: Os artistas plásticos baianos
estão se virando muito bem, alguns já participaram
de salões e tiraram até prêmios no México,
Espanha e lugares exóticos como Bulgária e Cracovia.
Para os artistas quadrinistas cujas imagens se lê melhor na
telinha, deve ser mais fácil. É so descobrir algum
e.mail e começar.
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