+ Entrevista
:: MARCELO CAMPOS ::

Entrevista realizada em novembro/2007
por Wilton Bernardo




Ele já fez muita coisa. Pra começar a enorme lista de trabalhos realizados, desenhou heróis e protagonistas da TV brasileira (He-Man, Centurions, Bravestarr, Xuxa, Angélica, Faustão e Sérgio Mallandro). Trabalhou para Editoras nacionais e internacionais - foi editor de arte na editora Abril e produziu para Malibu Publishing, Innovation, Cosmic Comics, DC Comics (Liga da Justiça, Superman, Teen Titans, Extreme Justice, Lanterna Verde, entre outros), Marvel Comics (Spiderman, Thor, Homem-de-Ferro, Vingadores, entre outros), Dark Horse (O Máskara), Image Comics (Darkness, Ascention, entre outros).

Ele foi co-diretor de clipes dos Titãs, foi editor de Arte. É o criador do personagem Quebra-Queixo. Em 1998 foi um dos fundadores do estúdio-escola Fábrica de Quadrinhos, que deixou 2002 para fundar a Quanta Academia de Arte. É um currículo rico e com certeza Marcelo deve ter orgulho de tantas realizações e um dos motivos desta entrevista deve responder a pergunta que muita gente deve estar se fazendo:
E agora? O que será que ele vai lançar?

1) Oficina HQ: Se eu não soubesse, com certeza essa seria a última pergunta da entrevista, mas dias após o lançamento de “Talvez isso...” seu mais novo lançamento pela Editora Casa 21, vou abrir a entrevista perguntando: qual a sensação de fazer um trabalho assim, com essa relação direta com a verdade do autor, onde seu maior compromisso é consigo mesmo?

:: Marcelo Campos: Eu sinto que fiz alguma coisa que tem a ver comigo. Com as coisas que penso e como vejo a vida... Muita gente chega e diz “agora você deve estar realizado”, não é por aí. Não me realizei fazendo este álbum... Ele é um material na área em que trabalho que passa pras pessoas um pouco do que eu sou mesmo. Só isso... Não uma realização de uma pessoa através do seu trabalho. Eu passei muitos anos desenhando, ilustrando e tal e essa coisas todos eram legais, mas não tinham nada a ver comigo, com o que eu sou... Tanto que não tenho 99% de tudo o que produzi. Este é um trabalho que vou guardar comigo.
As tiras foram feitas aos poucos. Não existia um compromisso em fazer uma obra fechada que fosse se tornar alguma coisa então não ouve uma relação direta com a obra finalizada em si. Então não ouve uma ligação direta com o trabalho... Não havia um trabalho. Eram só pensamentos e tal. Com o tempo fui relendo as tiras e na verdade vendo como meus amigos mais próximos – pra que eu mostrava as tiras – se relacionavam com elas e tinha leituras diferentes das minhas. Isso me deixou muito contente, porque gosto desse lance de existirem leituras diferentes mesmo. Achei interessante o fato de elas serem subjetivas.



2)
Oficina HQ: Como você postou os trabalhos no blog (www.talvezisso.blogspot.com) durante o tempo em que produzia (novembro de 2006 à junho de 2007), os internautas puderam conferir. Isso não preocupa as vendas? OU funcionou inversamente, como divulgação?

:: Marcelo Campos: Não tenho idéia sobre a vendagem desse material. Provavelmente não vai vender muito bem, sei lá... Acho que é uma coisa nada comercial... Não sei. Quando eu abri o blog eu não divulguei também. Não tem link no meu site pessoal pra esse blog, não tem link nem no site e nem no blog da Quanta também. Então acho que foi uma coisa que foi muito pouco vista pelas pessoas. Também não sei qual a expectativa que a Casa 21 tem em termos de vendagem... Imagino que eles tenham uma visão realista sobre um produto como esse... rs.


3) Oficina HQ: “As tiras reunidas no álbum Talvez isso... , foram produzidas pela minha necessidade de falar sobre a forma como vejo as coisas... Sentimentos e impressões que tenho sobre a vida, as pessoas e a maneira como levamos nossa existência aqui.” Essa necessidade a que você se refere de expressar algo sob seu ponto de vista, as verdades que percebe surgiu agora? Ou essa é uma vontade antiga?

:: Marcelo Campos: Na verdade essa resposta é longa... Eu nunca desejei ser nada. Nem desenhista, músico... Nem nada. Sempre tive uma dificuldade bem sincera em viver vendo as coisas neste sentido. Eu não sou o que eu faço pra viver, eu sou outra coisa... As coisas sempre aconteceram muito por acaso comigo... sorte, sei lá. Eu vejo as pessoas que conseguem planejar o que querem da vida, vão atrás de um sonho... Batalham por isso e tudo mais. Minha carreira nunca foi assim. Eu tinha que trabalhar pra sustentar minha vida e família e apagar incêndios e tal. Eu desenhava legal e as pessoas me pagavam pra fazer isso... rs... Sempre tive um vida muito complicada... Coisa que estou tentando aliviar – rs. Todas as minhas “preocupações” estavam e ainda estão relacionadas à assuntos que não pagam contas, como tentar entender o que está acontecendo... Eu nunca entendi muito bem tudo o que rola por aqui... Sempre foi muito difícil pra mim entender. Na maioria das vezes é bem complicado pras pessoas entenderem como eu penso e como eu vejo a vida e tal... Essas tiras são uma manifestação disso, sim, e elas vieram depois de eu passar por uma porrada de coisas muito difíceis pra mim. Mas, eu nunca tive uma “necessidade” em me expressar... Não no sentido em que as pessoas imaginam... No sentido de mostrar pras outras pessoas como eu penso e tal. As tiras eram um diálogo interno que acabou passando pra um veículo existente... Físico, e virando uma coletânea de tiras em um álbum.


4) Oficina HQ: Mesmo que não tivesse lido sobre seu interesse em diversas expressões artísticas, como músicas, temáticas como filosofia, pela diversidade de realizações, ainda que sempre com arte, mas em aspectos e gêneros diferentes, dá pra perceber que se trata de uma pessoa com uma mente aberta, e conseqüentemente com múltiplas influências. Foi difícil encarar o mercado de Quadrinhos norte-americano? Talvez a pergunta nem seja restrita ao mercado norte-americano, mas ao trabalho encomendado.

:: Marcelo Campos: Não... Não foi nada difícil... Era estranho porque eu sempre gostei de quadrinhos e de quadrinhos de super-heróis. Não é que eu não goste... Eu gosto. Quando digo que não tem muito a ver comigo, não é porque eu não goste ou que seja uma coisa totalmente diferente de mim. Existem MUITOS aspectos dos quadrinhos de super-heróis e norte-americanos que eu gosto e me interesso. Eles só não são uma expressão do que eu sou... Como as tiras, por exemplo. Acho que o que foi difícil, foi ver que eu passei 20 anos fazendo aquilo e o estresse disso. E também de ver que eu estava fazendo uma coisa que não tinha a ver comigo... Às vezes eu pensava... “cara... Que é que eu to fazendo?”. Mas eu tinha mulher, filhos, e tudo mais, e tinha que trabalhar. E eu sempre fui um cara muito sério – ou melhor, queria ser um cara muito sério, organizado, milimétrico... Todas essas coisa que a gente quer ser porque a gente simplesmente não se encaixa e quer se encaixar... Então, pensando assim, eu sentava lá na prancheta e dizia pra mim mesmo: “eles precisam de você, e você esta ganhando legal pra fazer isso e você pode fazer, então faz e não enche o saco”. Só que acontecem coisas muito duras com a gente. Coisa que fazem a gente chegar à conclusão que não quer mais viver assim... E foi isso. Aí, eu mudei tudo.



5) Oficina HQ: Eu queria saber qual a sua perspectiva para os quadrinhos, no que diz respeito a essa abertura de horizontes e possibilidades. Sabemos que sempre houve e ainda há aqueles que estão preocupados com o mercado, seja pela ótica do autor que quer alcançar grandes números de tiragem ou pelo editor que quer apostar em um retorno financeiro. Não é uma generalização, apenas uma possibilidade de vislumbramento, mas depois de MAUS (Art Spiegelman), das publicações de Joe Sacco(Uma História de Sarajevo , Palestina etc), Harvey Pekar, Robert Crumb entre muitos outros autores que ousaram ou simplesmente fizeram o que quiseram, já é fácil falar em se abordar temáticas diversas... Mas, fazer não é tão fácil quanto falar. Talvez Isso... Caminha para essa liberdade? Como você vê a receptividade do brasileiro para isso?

:: Marcelo Campos: Cara... Que pergunta difícil! Minha perspectiva de quadrinhos é tudo. Todo mundo pode fazer aquilo que tiver a fim de fazer. Quadrinhos é uma forma de expressão, de entretenimento, de questionamento. De tudo. Como a música, o cinema. Acho que a preocupação com o mercado é legal também, porque se o mercado não existir não existe quadrinhos... Acho que tem coisas que são feitas pra ter uma entrada imediata no mercado... Uma aceitação fácil... Com um nível de estranhamento mínimo e com facilidade de absorção e leitura no mercado geral, médio... Estes são os “produtos” num sentido mais simplista de se ver. E tem aqueles que querem “se expressar” e que são “destinados a um público menor, mais intelectualizado e exigente”. Tem de tudo. Acho que nos anos de 1960, 1970, tinha até mais gente fazendo esse tipo de quadrinho mais aberto... E hoje tem gente que tá a fim de fazer isso. O Talvez Isso... é um álbum que saiu mesmo sem querer. Eu não pensei nele como um produto. Mas acho que em muitos aspectos ele tem mesmo essa liberdade, ou intenção. E acho que os brasileiros têm uma tradição bem legal e grande em aceitar esse tipo de material. Acho que a gente tem mais tradição em aceitar isso – de maneira geral – do que os super-heróis e tal.

6) Oficina HQ: Eu entrevistei o Manoel Souza, editor da revista Mundo dos Super-Heróis e fiz um comentário e queria fazer pra você também, sobre quadrinhos nacionais. Não é de hoje que acompanhamos os heróis (nos EUA), a febre dos mangas. Enfim, são correntes grandiosas, e quando pensamos no Brasil, se esperando uma corrente assim forte e voraz arrebatadora de público, achamos que estamos longe. Mas se olharmos a grande riqueza e pluralidade de nossos autores, acabo achando que estamos “muito bem”, afinal temos trabalhos de Henfil, Ziraldo, Ageli, Maurício de Souza, Mozar Couto, Fábio Moon, Gabriel Ba, Cedraz, Luís Augusto, Flávio Luiz, você...

:: Marcelo Campos: Claro. A gente tem uma cara faz tempo. E que essa cara ta em outra vertente, diferente dos “mais comerciais vindos dos EUA”, mas sempre teve ali.


7) Oficina HQ: Não é fácil dividir-se entre ser o empresário e ser o artista. E até usando sua recente publicação como exemplo, você levou 8 meses para preparar “Talvez Isso...”, mas com certeza não largou as atividades, principamente ligadas à Quanta Academia de Arte. Como você consegue se dividir e equilibrar o tempo?

:: Marcelo Campos: No caso do Talvez Isso... foi fácil porque eu realmente não pensei em prazos, em fazer um álbum nem nada. Só no final, quando a gente tinha fechado contrato e tudo mais, é que eu tive que criar umas 9 tiras pra cumprir o prazo de entrega de gráfica. Mas foi bem tranqüilo. Mas, a coisa toda aqui é muito corrida, sim... Agora, uma das decisões que tomei na minha vida, é que vou viver e trabalhar na boa. Não sou rico, não tenho milhões nem nada... Não achem que estou nadando em dinheiro porque isso é muito, muito, muito, muito distante da realidade. Mas não vou mais viver do jeito que vivia... Então, vou fazendo as coisas todas que tenho que fazer, mas não torno mais minha vida, meu trabalho.


8) Oficina HQ: Pode citar pra nós alguns profissionais de Quadrinhos que admira? Pode ser por qualidade isoladas, tipo, a narrativa, a colorização, o traço, o roteiro.

:: Marcelo Campos: Olha, eu gostava muito do trabalho do Eisner. Gostava dos desenhos e das viagens mitológicas do Kirby... Do Hergé, do Daniel Torres. Gosto do estilo do Ziraldo e do Flavio Collin... Acho Peanuts e Calvin geniais. Curto Laerte e o Angeli quando está em crise.


9) Oficina HQ: O que te interessa nos quadrinhos hoje? Me refiro tanto ao fazer como artista. Tem alguma coisa que você ainda queira fazer e que considere um desafio ainda não realizado?

:: Marcelo Campos: Eu parei de fazer quadrinhos em 2005. De lá pra cá fiz uma ou outra ilustração... Livros ilustrados, essas coisas. Leio uma coisa ou outra, mas bem pouco. Bem pouco mesmo. Em quadrinhos, o que me interessa agora é ver os caras que estão ligados à Quanta, de alguma maneira, produzindo. Principalmente os que estão envolvidos em algum projeto da Quanta... Um dos que estamos tocando aqui. Gosto de ver os caras conseguindo publicar... Curto ver o tesão dos caras quando realizam esse sonho.


10) Oficina HQ: O que faz sua cabeça hoje? Qual a série ou publicação que te conquista, que te faz sentar e ler com interesse?

:: Marcelo Campos: Em quadrinhos eu continuo lendo Calvin e Peanuts... rs.


11) Oficina HQ: Grande parte dos leitores desta entrevista são alunos e ex-alunos dos nossos cursos e Oficinas. Por isso, te peço pra deixar um recado pra os que desejam trilhar uma carreira profissional com Quadrinhos.

:: Marcelo Campos: Olha, eu acho que os caras têm que pensar em termos do que eles tão a fim de fazer... Seja visando viver disso em termos financeiros, ou como uma forma de se expressar de maneira mais pessoal. Para aqueles que tão a fim da primeira opção, como uma profissão mesmo, que dê à elas um suporte legal de vida e tal; é interessante ter muita técnica de desenho, porque você estará trabalhando visando um resultado desejado pelo editor e pelo público.
Para aqueles que querem a segunda opção, terem em mente que muitas vezes isso não vai te garantir um sustento e também que o seu trabalho pode não ser aceito, mesmo para um publico especifico que já curte este tipo de linha de trabalho... Mas, que se fizer “sucesso”, seja ele qual for, isso pode ser bem prazeroso e até seu sustento.
Pense em termos adultos sobre a vida e sobre seu trabalho. E esse adulto não precisa ser uma coisa apenas fria... Pode ser parte de sua paixão. Não tenha preconceito com nada e vá em frente.


12) Oficina HQ: Marcelo, como se pode adquirir sua recente publicação “Talvez Isso...” estando fora de São Paulo ? Está sendo distribuída em livrarias? Pode-se adquirir por algum site? Muito obrigado pela entrevista!

:: Marcelo Campos: O que eu posso fazer é dar o site da Casa 21...
http://www.editoracasa21.com.br/



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