1)
Oficina HQ: Se eu não soubesse, com certeza essa seria
a última pergunta da entrevista, mas dias após o lançamento
de “Talvez isso...” seu mais novo lançamento pela
Editora Casa 21, vou abrir a entrevista perguntando: qual a sensação
de fazer um trabalho assim, com essa relação direta com
a verdade do autor, onde seu maior compromisso é consigo mesmo?
:: Marcelo Campos: Eu sinto que fiz alguma coisa que
tem a ver comigo. Com as coisas que penso e como vejo a vida... Muita
gente chega e diz “agora você deve estar realizado”,
não é por aí. Não me realizei fazendo este
álbum... Ele é um material na área em que trabalho
que passa pras pessoas um pouco do que eu sou mesmo. Só isso...
Não uma realização de uma pessoa através
do seu trabalho. Eu passei muitos anos desenhando, ilustrando e tal
e essa coisas todos eram legais, mas não tinham nada a ver comigo,
com o que eu sou... Tanto que não tenho 99% de tudo o que produzi.
Este é um trabalho que vou guardar comigo.
As tiras foram feitas aos poucos. Não existia um compromisso
em fazer uma obra fechada que fosse se tornar alguma coisa então
não ouve uma relação direta com a obra finalizada
em si. Então não ouve uma ligação direta
com o trabalho... Não havia um trabalho. Eram só pensamentos
e tal. Com o tempo fui relendo as tiras e na verdade vendo como meus
amigos mais próximos – pra que eu mostrava as tiras –
se relacionavam com elas e tinha leituras diferentes das minhas. Isso
me deixou muito contente, porque gosto desse lance de existirem leituras
diferentes mesmo. Achei interessante o fato de elas serem subjetivas.
2) Oficina
HQ: Como
você postou os trabalhos no blog (www.talvezisso.blogspot.com)
durante o tempo em que produzia (novembro de 2006 à junho de
2007), os internautas puderam conferir. Isso não preocupa as
vendas? OU funcionou inversamente, como divulgação?
::
Marcelo Campos: Não
tenho idéia sobre a vendagem desse material. Provavelmente não
vai vender muito bem, sei lá... Acho que é uma coisa nada
comercial... Não sei. Quando eu abri o blog eu não divulguei
também. Não tem link no meu site pessoal pra esse blog,
não tem link nem no site e nem no blog da Quanta também.
Então acho que foi uma coisa que foi muito pouco vista pelas
pessoas. Também não sei qual a expectativa que a Casa
21 tem em termos de vendagem... Imagino que eles tenham uma visão
realista sobre um produto como esse... rs.
3)
Oficina
HQ: “As
tiras reunidas no álbum Talvez isso... , foram produzidas pela
minha necessidade de falar sobre a forma como vejo as coisas... Sentimentos
e impressões que tenho sobre a vida, as pessoas e a maneira como
levamos nossa existência aqui.” Essa necessidade a que você
se refere de expressar algo sob seu ponto de vista, as verdades que
percebe surgiu agora? Ou essa é uma vontade antiga?
::
Marcelo Campos:
Na verdade
essa resposta é longa... Eu nunca desejei ser nada. Nem desenhista,
músico... Nem nada. Sempre tive uma dificuldade bem sincera em
viver vendo as coisas neste sentido. Eu não sou o que eu faço
pra viver, eu sou outra coisa... As coisas sempre aconteceram muito
por acaso comigo... sorte, sei lá. Eu vejo as pessoas que conseguem
planejar o que querem da vida, vão atrás de um sonho...
Batalham por isso e tudo mais. Minha carreira nunca foi assim. Eu tinha
que trabalhar pra sustentar minha vida e família e apagar incêndios
e tal. Eu desenhava legal e as pessoas me pagavam pra fazer isso...
rs... Sempre tive um vida muito complicada... Coisa que estou tentando
aliviar – rs. Todas as minhas “preocupações”
estavam e ainda estão relacionadas à assuntos que não
pagam contas, como tentar entender o que está acontecendo...
Eu nunca entendi muito bem tudo o que rola por aqui... Sempre foi muito
difícil pra mim entender. Na maioria das vezes é bem complicado
pras pessoas entenderem como eu penso e como eu vejo a vida e tal...
Essas tiras são uma manifestação disso, sim, e
elas vieram depois de eu passar por uma porrada de coisas muito difíceis
pra mim. Mas, eu nunca tive uma “necessidade” em me expressar...
Não no sentido em que as pessoas imaginam... No sentido de mostrar
pras outras pessoas como eu penso e tal. As tiras eram um diálogo
interno que acabou passando pra um veículo existente... Físico,
e virando uma coletânea de tiras em um álbum.
4)
Oficina
HQ:
Mesmo que
não tivesse lido sobre seu interesse em diversas expressões
artísticas, como músicas, temáticas como filosofia,
pela diversidade de realizações, ainda que sempre com
arte, mas em aspectos e gêneros diferentes, dá pra perceber
que se trata de uma pessoa com uma mente aberta, e conseqüentemente
com múltiplas influências. Foi difícil encarar o
mercado de Quadrinhos norte-americano? Talvez a pergunta nem seja restrita
ao mercado norte-americano, mas ao trabalho encomendado.
::
Marcelo Campos:
Não...
Não foi nada difícil... Era estranho porque eu sempre
gostei de quadrinhos e de quadrinhos de super-heróis. Não
é que eu não goste... Eu gosto. Quando digo que não
tem muito a ver comigo, não é porque eu não goste
ou que seja uma coisa totalmente diferente de mim. Existem MUITOS aspectos
dos quadrinhos de super-heróis e norte-americanos que eu gosto
e me interesso. Eles só não são uma expressão
do que eu sou... Como as tiras, por exemplo. Acho que o que foi difícil,
foi ver que eu passei 20 anos fazendo aquilo e o estresse disso. E também
de ver que eu estava fazendo uma coisa que não tinha a ver comigo...
Às vezes eu pensava... “cara... Que é que eu to
fazendo?”. Mas eu tinha mulher, filhos, e tudo mais, e tinha que
trabalhar. E eu sempre fui um cara muito sério – ou melhor,
queria ser um cara muito sério, organizado, milimétrico...
Todas essas coisa que a gente quer ser porque a gente simplesmente não
se encaixa e quer se encaixar... Então, pensando assim, eu sentava
lá na prancheta e dizia pra mim mesmo: “eles precisam de
você, e você esta ganhando legal pra fazer isso e você
pode fazer, então faz e não enche o saco”. Só
que acontecem coisas muito duras com a gente. Coisa que fazem a gente
chegar à conclusão que não quer mais viver assim...
E foi isso. Aí, eu mudei tudo.

5)
Oficina
HQ:
Eu queria
saber qual a sua perspectiva para os quadrinhos, no que diz respeito
a essa abertura de horizontes e possibilidades. Sabemos que sempre houve
e ainda há aqueles que estão preocupados com o mercado,
seja pela ótica do autor que quer alcançar grandes números
de tiragem ou pelo editor que quer apostar em um retorno financeiro.
Não é uma generalização, apenas uma possibilidade
de vislumbramento, mas depois de MAUS (Art Spiegelman), das publicações
de Joe Sacco(Uma História de Sarajevo , Palestina etc), Harvey
Pekar, Robert Crumb entre muitos outros autores que ousaram ou simplesmente
fizeram o que quiseram, já é fácil falar em se
abordar temáticas diversas... Mas, fazer não é
tão fácil quanto falar. Talvez Isso... Caminha para essa
liberdade? Como você vê a receptividade do brasileiro para
isso?
::
Marcelo Campos:
Cara...
Que pergunta difícil! Minha perspectiva de quadrinhos é
tudo. Todo mundo pode fazer aquilo que tiver a fim de fazer. Quadrinhos
é uma forma de expressão, de entretenimento, de questionamento.
De tudo. Como a música, o cinema. Acho que a preocupação
com o mercado é legal também, porque se o mercado não
existir não existe quadrinhos... Acho que tem coisas que são
feitas pra ter uma entrada imediata no mercado... Uma aceitação
fácil... Com um nível de estranhamento mínimo e
com facilidade de absorção e leitura no mercado geral,
médio... Estes são os “produtos” num sentido
mais simplista de se ver. E tem aqueles que querem “se expressar”
e que são “destinados a um público menor, mais intelectualizado
e exigente”. Tem de tudo. Acho que nos anos de 1960, 1970, tinha
até mais gente fazendo esse tipo de quadrinho mais aberto...
E hoje tem gente que tá a fim de fazer isso. O Talvez Isso...
é um álbum que saiu mesmo sem querer. Eu não pensei
nele como um produto. Mas acho que em muitos aspectos ele tem mesmo
essa liberdade, ou intenção. E acho que os brasileiros
têm uma tradição bem legal e grande em aceitar esse
tipo de material. Acho que a gente tem mais tradição em
aceitar isso – de maneira geral – do que os super-heróis
e tal.
6)
Oficina
HQ:
Eu entrevistei
o Manoel Souza, editor da revista Mundo dos Super-Heróis e fiz
um comentário e queria fazer pra você também, sobre
quadrinhos nacionais. Não é de hoje que acompanhamos os
heróis (nos EUA), a febre dos mangas. Enfim, são correntes
grandiosas, e quando pensamos no Brasil, se esperando uma corrente assim
forte e voraz arrebatadora de público, achamos que estamos longe.
Mas se olharmos a grande riqueza e pluralidade de nossos autores, acabo
achando que estamos “muito bem”, afinal temos trabalhos
de Henfil, Ziraldo, Ageli, Maurício de Souza, Mozar Couto, Fábio
Moon, Gabriel Ba, Cedraz, Luís Augusto, Flávio Luiz, você...
::
Marcelo Campos:
Claro.
A gente tem uma cara faz tempo. E que essa cara ta em outra vertente,
diferente dos “mais comerciais vindos dos EUA”, mas sempre
teve ali.
7)
Oficina
HQ:
Não
é fácil dividir-se entre ser o empresário e ser
o artista. E até usando sua recente publicação
como exemplo, você levou 8 meses para preparar “Talvez Isso...”,
mas com certeza não largou as atividades, principamente ligadas
à Quanta Academia de Arte. Como você consegue se dividir
e equilibrar o tempo?
::
Marcelo Campos:
No
caso do Talvez Isso... foi fácil porque eu realmente não
pensei em prazos, em fazer um álbum nem nada. Só no final,
quando a gente tinha fechado contrato e tudo mais, é que eu tive
que criar umas 9 tiras pra cumprir o prazo de entrega de gráfica.
Mas foi bem tranqüilo. Mas, a coisa toda aqui é muito corrida,
sim... Agora, uma das decisões que tomei na minha vida, é
que vou viver e trabalhar na boa. Não sou rico, não tenho
milhões nem nada... Não achem que estou nadando em dinheiro
porque isso é muito, muito, muito, muito distante da realidade.
Mas não vou mais viver do jeito que vivia... Então, vou
fazendo as coisas todas que tenho que fazer, mas não torno mais
minha vida, meu trabalho.
8)
Oficina
HQ:
Pode citar
pra nós alguns profissionais de Quadrinhos que admira? Pode ser
por qualidade isoladas, tipo, a narrativa, a colorização,
o traço, o roteiro.
::
Marcelo Campos:
Olha,
eu gostava muito do trabalho do Eisner. Gostava dos desenhos e das viagens
mitológicas do Kirby... Do Hergé, do Daniel Torres. Gosto
do estilo do Ziraldo e do Flavio Collin... Acho Peanuts e Calvin geniais.
Curto Laerte e o Angeli quando está em crise.
9)
Oficina
HQ:
O que te
interessa nos quadrinhos hoje? Me refiro tanto ao fazer como artista.
Tem alguma coisa que você ainda queira fazer e que considere um
desafio ainda não realizado?
::
Marcelo Campos:
Eu
parei de fazer quadrinhos em 2005. De lá pra cá fiz uma
ou outra ilustração... Livros ilustrados, essas coisas.
Leio uma coisa ou outra, mas bem pouco. Bem pouco mesmo. Em quadrinhos,
o que me interessa agora é ver os caras que estão ligados
à Quanta, de alguma maneira, produzindo. Principalmente os que
estão envolvidos em algum projeto da Quanta... Um dos que estamos
tocando aqui. Gosto de ver os caras conseguindo publicar... Curto ver
o tesão dos caras quando realizam esse sonho.
10)
Oficina
HQ:
O que faz
sua cabeça hoje? Qual a série ou publicação
que te conquista, que te faz sentar e ler com interesse?
::
Marcelo Campos:
Em
quadrinhos eu continuo lendo Calvin e Peanuts... rs.
11)
Oficina
HQ:
Grande parte
dos leitores desta entrevista são alunos e ex-alunos dos nossos
cursos e Oficinas. Por isso, te peço pra deixar um recado pra
os que desejam trilhar uma carreira profissional com Quadrinhos.
::
Marcelo Campos:
Olha,
eu acho que os caras têm que pensar em termos do que eles tão
a fim de fazer... Seja visando viver disso em termos financeiros, ou
como uma forma de se expressar de maneira mais pessoal. Para aqueles
que tão a fim da primeira opção, como uma profissão
mesmo, que dê à elas um suporte legal de vida e tal; é
interessante ter muita técnica de desenho, porque você
estará trabalhando visando um resultado desejado pelo editor
e pelo público.
Para aqueles que querem a segunda opção, terem em mente
que muitas vezes isso não vai te garantir um sustento e também
que o seu trabalho pode não ser aceito, mesmo para um publico
especifico que já curte este tipo de linha de trabalho... Mas,
que se fizer “sucesso”, seja ele qual for, isso pode ser
bem prazeroso e até seu sustento.
Pense em termos adultos sobre a vida e sobre seu trabalho. E esse adulto
não precisa ser uma coisa apenas fria... Pode ser parte de sua
paixão. Não tenha preconceito com nada e vá em
frente.
12)
Oficina
HQ:
Marcelo,
como se pode adquirir sua recente publicação “Talvez
Isso...” estando fora de São Paulo ? Está sendo
distribuída em livrarias? Pode-se adquirir por algum site? Muito
obrigado pela entrevista!
::
Marcelo Campos:
O que eu
posso fazer é dar o site da Casa 21...
http://www.editoracasa21.com.br/
+
Voltar para o início do link Entrevista