Em 1994,
comecei a trabalhar na Editora Europa como assistente de arte. Tomei
gosto pela coisa e comecei a progredir.
Virei editor de arte, diretor de arte... e decidi dominar também
o texto. Comecei como repórter, depois redator e, em 2004, me
tornei editor de redação da revista Natureza, o título
mais antigo da editora. Paralelo a isso, sempre guardava meu projeto
de fazer uma revista sobre HQs. Nos últimos 15 anos aprimorei
a idéia conforme fui dominando o processo de fazer revistas.
Até que, no ano passado, consegui convencer a diretoria da Europa
a lançar a MSH.
02)
Oficina HQ: Um internauta que está sempre presente
nas realizações do site Oficina HQ, ficou sabendo que
eu lhe entevistaria e me pedia pra prguntar-lhe sobre os estilos de
Quadrinhos. Desejamos saber se você gosta de outros estilos, se
tem algum personagem preferido, diante de um universo tão variado
se pensarmos em Itália, França, Japão, além
dos Estados Unidos, por exemplo. E eu acrescento à pergunta do
interneuta, como você vê essa variação de
estilos.
Manoel de Souza: Eu gosto de HQs no geral. Leio de Mônica
a Manara. Algumas pessoas acham que só gosto de super-heróis
por que sou editor da MSH. Isso não procede. Acompanho as HQs
de heróis com mais atenção para facilitar meu trabalho
de editor, mas leio e gosto de todos os estilos. Só não
acompanho mangás e faroeste, gêneros que nunca fizeram
minha cabeça.
Não
falo de todos esses estilos na MSH por que tenho que manter a coerência
editorial da revista. Somos uma revista de Super-heróis. Não
dá para falar de charges do Angeli, por exemplo. Veja, não
tenho nada contra o Angeli. Pelo contrário, sou fã do
cara e até trabalhei na Editora Circo em 1990. Apenas não
posso misturar as coisas.
Tenho idéia de lançar outros títulos de gêneros
bem diferentes, especialmente humor.
Acho fantástico haver tantos gêneros diferentes hoje nas
bancas. Só espero que haja leitores para todos também.
Acima, estudos de como a revista seria. Como
podem conferir, o nome poderia ter sido Super Gibi.
03) Oficina HQ: É uma atitude corajosa lançar
uma revista sobre Quadrinhos(super heróis) no Brasil... por todos
os motivos. Inclusive um deles: O maior sucesso editorial brasileiro
não é esse segmento. Como você entende essa atitude,
que eu penso que seja acertada, ao mesmo tempo que o "herói
made in Mrasil" não tem ainda a visibilidade ou vida longa.
(obviamente sei que existem vários criadores, e personagens que
surgiram ao longo dos tempos aqui no Brasil).
Manoel
de Souza: O foco principal da revista é o universo dos
heróis americanos. Falamos só um pouco de heróis
brasileiros na seção Heróis BR. A maior parte dos
leitores compra a revista interessados no dossiê de seus heróis
(americanos) preferidos. O mercado brasileiro de HQs de super-heróis
ainda está em desenvolvimento e tende a melhorar. Trabalhos como
o Cometa, do Samicler Gonçalves, são um indício
disso.
Acima,
colaboradores da revista Mundo dos Super Heróis com Manoel de
Souza.
04) Oficina
HQ: A história da produção de heróis
brasileiros mostra um pouco dessa trajetória de cópia
, adaptação (dos heróis). Como você vê
o panorama dos quadrinhos brasileiros? Não apenas heróis...
de forma geral... porque obviamente na história dos Quadrinhos
brasileiros temos grandes feitos, grandes nomes. Aqui aprodução
acontece muitas vezes de forma autoral. Quero dizer, por exemplo,...
Angeli, Ziraldo, Henfil. É gente com histórias sólidas,
gente de muito talento e reconhecimento. E mais ainda: com trabalhos
de conteúdo. Tem muita gente... vários estilos difenrentes.
Não é uma corrente, uma "escola", no que se
refere a estilo.. e isso é maravilhoso não é?
Engraçado, que, se observamos isso de forma isolada, por estilo,
parece que no Brasil as coisas estão aquem do que realmente está.
Mas se observamos o todo, percebemos que já temos muitas belas
histórias. Muita gente boa!
Manoel de Souza: Tem muita coisa legal acontecendo.
E a principal vantagem é que muitos autores não dependem
das editoras. Vejo muita coisa legal em fanzines mesmo. Sou fã
da Mulher Estupenda, por exemplo. O autor é interessante e consegue
se destacar da maioria que apenas copia os americanos.
É aquilo que disse antes, é preciso investir em boas idéias,
roteiros inteligentes. Ninguém vai comprar uma revista em quadrinhos
só por que é brasileira. O leitor tem que se sentir recompensado
ao terminar de ler cada história, seja humor ou aventura.
Vejo muita coisa sendo feita, mas a maioria peca pela mesmice. Faltam
boas idéias.

No
HQ MIX (SP), julho de 2007, quand a revista Mundo dos Super Heróis
recebe 1o. troféu.
05) Oficina
HQ: A Revista recebeu o prêmio HQ MIX na categoria melhor
publicação sobre Quadrinhos. Sinal de caminho acertado?
Manoel de Souza: Com certeza. Mas, mais importante do que o
prêmio são as respostas dos leitores. Recebo muitos e-mails
de incentivo para a continuação da revista. Acho que acertamos
a fórmula antes do planejado.
06) Oficina
HQ: E qual era o planejado? vocês se deram um tempo pra
encarar as possíveis dificuldade de quanto tempo? Houve essa
predefinição?
Manoel de Souza: Sempre tive um certo planejamento, apesar
da enorme correria que é fazer a revista. Edito três revistas
e a MSH é a terceira em prioridade, mas a minha preferida.
Geralmente,
uma revista demora cerca de um ano até aprimorar sua receita.
Pela resposta do leitor, conseguimos isso logo na primeira edição.
Tanto que só tenho aprimorado a fórmula. O alicerce continua
o mesmo.
07) Oficina HQ: Voltando à revista. Você
já disse que a idéia de fazê-la é antiga.
Mas ano passado, você parou e achou que estava preparado pra realizá-la.
O que foi mais importante? Foi a abertura da Editora? Foi você
que se achou mais preparado?
Manoel de Souza: Tudo foi resultado de muita insistência.
Já estava desenvolvendo a base da revista há um bom tempo
e as coisas foram se juntando. Tanto torrei o saco do meu chefe que
ele topou lançarmos uma edição especial para aproveitar
a mídia em torno do lançamento do filme Superman Returns.
Juntei o material que tinha planejado em 2003, na época com o
intuito de comemorar os 65 anos do personagem. Ampliei a pauta e parti
para uma edição especial do
Homem de Aço. Mas, durante o processo, tive que mudar de rumo
pois havia o risco de acusarem a editora de não pagar royalties
do personagem. Por isso, diminui bem o dossiê do Superman e acrescentei
as outras seções. Em resumo: depois de tanto esforço,
parece que o quebra-cabeça se juntou perfeitamente.
08) Oficina HQ: Temos curiosidade de saber como funciona,
em relação ao pessoal, à equipe. Eu li numa entrevista
você falando que agora pode pagar alguns colaboradores, e falou
também que tem dado um passo de cada vez. Todos os fãs
de HQ, aqueles que trabalham ou desejam trabalhar com HQ com certeza
torce pra essa sua iniciativa durar, crescer. Qual o próximo
passo a ser dado? É algo a melhorar ou alguma novidade que você
quer inserir na revista?
Manoel de Souza: A equipe fixa somos eu e o André
Morelli, um amigo que trabalha na redação como meu braço
direito. Fora ele, tenho uma equipe de arte que me ajuda a diagramar
as revistas do meu grupo, entre elas a Mundo. Fora eles, tenho cinco
ou seis colaboradores externos que são mais próximos e
formam uma espécie de conselho editorial. Alguns são amigos
desde o colégio quando eu editava fanzines. Outros surgiram após
o lançamento da Mundo mas ficaram
tão íntimos de todos que parece conhecidos de muito tempo.
São essa pessoas a quem destino a verba que tenho para fazer
a revista. Como muita gente se oferece para participar, mesmo gratuitamente,
sempre abro um espaço para ter caras novas na revista.
Tenho
muitas novidades para a revista. Cerca de umas cinco ou seis seções
nem tive tempo ainda de pôr em prática. Já tenho
pautas programas para as próximas dez edições mais
ou menos. Mas minha meta é aumentar a venda para
que a revista tenha um lançamento nacional e logo se torne mensal.
Futuramente – ou não tão futuramente assim –
pretendo editar outros títulos e também quadrinhos mesmo.
Acima, matéria sobre o criador do herói
brasileiro Raio Negro, publicada na revista.
09) Oficina HQ: A leitura online da revista tem sido
positiva? É uma experiência a ser repensada?
Manoel de Souza: Da maneira como fazemos, em que só
dá para ver o preview sem ler o texto, sim. Ajuda o leitor a
conhecer a experimentar como é o interior da revista.

Acima, matéria publicada na Revista.
10) Oficina HQ: Você falou sobre “boas
idéias” como algo que precisa pra que as coisas aconteçam.
Tem algo mais que você deseja dizer àqueles que sonham
ingressar na área de HQ profissionalmente, seja trabalhando de
forma autoral, seja pra mercado estrangeiro?
Manoel de Souza: O segredo é trabalhar para
o leitor. Mais do que um artista, o quadrinhista deve ser um prestador
de entretenimento. O leitor deve sempre se sentir recompensado ao ler
uma HQ. Se não houver essa recompensa, o autor gastou nanquim,
papel e tempo a-tôa.

Acima, publicação da revista.
11) Oficina HQ: Não sei se você sabe mas,
desde 2003, o Oficina HQ que começou com realização
de Oficinas de Quadrinhos, tem realizado diversas atividades aqui em
Salvador-Ba, e graças ao site, conseguimos dialogar cada vez
mais com outras iniciativas e nos fazer conhecidos. Essa iniciativa
que chamo de Ação cultural que, sinceramente, é
uma forma de me manter próximo dos Quadrinhos, está de
portas abertas pra vocês. É realmente um prazer enorme
fazer essa entrevista e espero fazê-la pessoalmente, em breve.
E conte-nos sempre suas novidades para que possamos deixar não
apenas os internautas informados, mas nossos alunos.
Manoel de Souza: Eu que agradeço a oportunidade.
Quando precisar, estou à disposição.
+
Voltar para o início do link Entrevista