+ Entrevista
Manoel de Souza
Agosto - 2007

Manoel de Souza, é o editor da revista Mundo dos Super Heróis, vencedora do Prêmio HQ MIX em julho de 2007, referente a sua atuação em 2006.
A publicação que surgiu em 2006, completa 1 ano, com produção bimestral em São Paulo.
Esta entrevista é uma oprtunidade de entender e conhecer melhor não apenas o Editor, mas também o mercado e as iniciativas de uma publicação especializada em HQ.

01) Oficina HQ: O contato com os quadrinhos começou desde pequeno como acontece com a maioria? os heróis sempre foram preferência? é de fato? e quando a paixão virou ambição profissional? Foi uma decisão racional? Qual sua formação?

Manoel de Souza: Sempre gostei de HQs e desenhos animados. Comecei a acompanhar os quadrinhos mais intensamente a partir de 1985, quando tinha 12 anos. Minhas primeiras revistas dessa fase foram as da Marvel/Abril Hulk 21 e Capitão América 70.
Depois não parei mais. Isso me inspirou a estudar desenho. No colégio já fazia meus gibis à lápis e jornais de mimiógrafo.

Depois me formei em Desenho de Comunicação, pela Escola Técnica Carlos de Campos, em 1992. Trabalhei um tempo como cartunista e ilustrador, mas logo me debandei para o design gráfico.

Em 1994, comecei a trabalhar na Editora Europa como assistente de arte. Tomei gosto pela coisa e comecei a progredir.
Virei editor de arte, diretor de arte... e decidi dominar também o texto. Comecei como repórter, depois redator e, em 2004, me tornei editor de redação da revista Natureza, o título mais antigo da editora. Paralelo a isso, sempre guardava meu projeto de fazer uma revista sobre HQs. Nos últimos 15 anos aprimorei a idéia conforme fui dominando o processo de fazer revistas.
Até que, no ano passado, consegui convencer a diretoria da Europa a lançar a MSH.


02) Oficina HQ: Um internauta que está sempre presente nas realizações do site Oficina HQ, ficou sabendo que eu lhe entevistaria e me pedia pra prguntar-lhe sobre os estilos de Quadrinhos. Desejamos saber se você gosta de outros estilos, se tem algum personagem preferido, diante de um universo tão variado se pensarmos em Itália, França, Japão, além dos Estados Unidos, por exemplo. E eu acrescento à pergunta do interneuta, como você vê essa variação de estilos.

Manoel de Souza
: Eu gosto de HQs no geral. Leio de Mônica a Manara. Algumas pessoas acham que só gosto de super-heróis por que sou editor da MSH. Isso não procede. Acompanho as HQs de heróis com mais atenção para facilitar meu trabalho de editor, mas leio e gosto de todos os estilos. Só não acompanho mangás e faroeste, gêneros que nunca fizeram minha cabeça.
Não falo de todos esses estilos na MSH por que tenho que manter a coerência editorial da revista. Somos uma revista de Super-heróis. Não dá para falar de charges do Angeli, por exemplo. Veja, não tenho nada contra o Angeli. Pelo contrário, sou fã do cara e até trabalhei na Editora Circo em 1990. Apenas não posso misturar as coisas.
Tenho idéia de lançar outros títulos de gêneros bem diferentes, especialmente humor.
Acho fantástico haver tantos gêneros diferentes hoje nas bancas. Só espero que haja leitores para todos também.



Acima, estudos de como a revista seria. Como podem conferir, o nome poderia ter sido Super Gibi.

03) Oficina HQ: É uma atitude corajosa lançar uma revista sobre Quadrinhos(super heróis) no Brasil... por todos os motivos. Inclusive um deles: O maior sucesso editorial brasileiro não é esse segmento. Como você entende essa atitude, que eu penso que seja acertada, ao mesmo tempo que o "herói made in Mrasil" não tem ainda a visibilidade ou vida longa. (obviamente sei que existem vários criadores, e personagens que surgiram ao longo dos tempos aqui no Brasil).

Manoel de Souza: O foco principal da revista é o universo dos heróis americanos. Falamos só um pouco de heróis brasileiros na seção Heróis BR. A maior parte dos leitores compra a revista interessados no dossiê de seus heróis (americanos) preferidos. O mercado brasileiro de HQs de super-heróis ainda está em desenvolvimento e tende a melhorar. Trabalhos como o Cometa, do Samicler Gonçalves, são um indício disso.

Acima, colaboradores da revista Mundo dos Super Heróis com Manoel de Souza.

04) Oficina HQ: A história da produção de heróis brasileiros mostra um pouco dessa trajetória de cópia , adaptação (dos heróis). Como você vê o panorama dos quadrinhos brasileiros? Não apenas heróis... de forma geral... porque obviamente na história dos Quadrinhos brasileiros temos grandes feitos, grandes nomes. Aqui aprodução acontece muitas vezes de forma autoral. Quero dizer, por exemplo,... Angeli, Ziraldo, Henfil. É gente com histórias sólidas, gente de muito talento e reconhecimento. E mais ainda: com trabalhos de conteúdo. Tem muita gente... vários estilos difenrentes. Não é uma corrente, uma "escola", no que se refere a estilo.. e isso é maravilhoso não é?
Engraçado, que, se observamos isso de forma isolada, por estilo, parece que no Brasil as coisas estão aquem do que realmente está. Mas se observamos o todo, percebemos que já temos muitas belas histórias. Muita gente boa!


Manoel de Souza
: Tem muita coisa legal acontecendo.
E a principal vantagem é que muitos autores não dependem das editoras. Vejo muita coisa legal em fanzines mesmo. Sou fã da Mulher Estupenda, por exemplo. O autor é interessante e consegue se destacar da maioria que apenas copia os americanos.
É aquilo que disse antes, é preciso investir em boas idéias, roteiros inteligentes. Ninguém vai comprar uma revista em quadrinhos só por que é brasileira. O leitor tem que se sentir recompensado ao terminar de ler cada história, seja humor ou aventura.
Vejo muita coisa sendo feita, mas a maioria peca pela mesmice. Faltam boas idéias.


No HQ MIX (SP), julho de 2007, quand a revista Mundo dos Super Heróis recebe 1o. troféu.

05) Oficina HQ: A Revista recebeu o prêmio HQ MIX na categoria melhor publicação sobre Quadrinhos. Sinal de caminho acertado?

Manoel de Souza
: Com certeza. Mas, mais importante do que o prêmio são as respostas dos leitores. Recebo muitos e-
mails de incentivo para a continuação da revista. Acho que acertamos a fórmula antes do planejado.

06) Oficina HQ: E qual era o planejado? vocês se deram um tempo pra encarar as possíveis dificuldade de quanto tempo? Houve essa predefinição?

Manoel de Souza
: Sempre tive um certo planejamento, apesar da enorme correria que é fazer a revista. Edito três revistas e a MSH é a terceira em prioridade, mas a minha preferida.
Geralmente, uma revista demora cerca de um ano até aprimorar sua receita. Pela resposta do leitor, conseguimos isso logo na primeira edição. Tanto que só tenho aprimorado a fórmula. O alicerce continua o mesmo.


07) Oficina HQ: Voltando à revista. Você já disse que a idéia de fazê-la é antiga. Mas ano passado, você parou e achou que estava preparado pra realizá-la. O que foi mais importante? Foi a abertura da Editora? Foi você que se achou mais preparado?

Manoel de Souza
: Tudo foi resultado de muita insistência. Já estava desenvolvendo a base da revista há um bom tempo e as coisas foram se juntando. Tanto torrei o saco do meu chefe que ele topou lançarmos uma edição especial para aproveitar a mídia em torno do lançamento do filme Superman Returns. Juntei o material que tinha planejado em 2003, na época com o intuito de comemorar os 65 anos do personagem. Ampliei a pauta e parti para uma edição especial do
Homem de Aço. Mas, durante o processo, tive que mudar de rumo pois havia o risco de acusarem a editora de não pagar royalties do personagem. Por isso, diminui bem o dossiê do Superman e acrescentei as outras seções. Em resumo: depois de tanto esforço, parece que o quebra-cabeça se juntou perfeitamente.


08) Oficina HQ: Temos curiosidade de saber como funciona, em relação ao pessoal, à equipe. Eu li numa entrevista você falando que agora pode pagar alguns colaboradores, e falou também que tem dado um passo de cada vez. Todos os fãs de HQ, aqueles que trabalham ou desejam trabalhar com HQ com certeza torce pra essa sua iniciativa durar, crescer. Qual o próximo passo a ser dado? É algo a melhorar ou alguma novidade que você quer inserir na revista?

Manoel de Souza: A equipe fixa somos eu e o André Morelli, um amigo que trabalha na redação como meu braço direito. Fora ele, tenho uma equipe de arte que me ajuda a diagramar as revistas do meu grupo, entre elas a Mundo. Fora eles, tenho cinco ou seis colaboradores externos que são mais próximos e formam uma espécie de conselho editorial. Alguns são amigos desde o colégio quando eu editava fanzines. Outros surgiram após o lançamento da Mundo mas ficaram
tão íntimos de todos que parece conhecidos de muito tempo. São essa pessoas a quem destino a verba que tenho para fazer a revista. Como muita gente se oferece para participar, mesmo gratuitamente, sempre abro um espaço para ter caras novas na revista.
Tenho muitas novidades para a revista. Cerca de umas cinco ou seis seções nem tive tempo ainda de pôr em prática. Já tenho pautas programas para as próximas dez edições mais ou menos. Mas minha meta é aumentar a venda para
que a revista tenha um lançamento nacional e logo se torne mensal. Futuramente – ou não tão futuramente assim – pretendo editar outros títulos e também quadrinhos mesmo.


Acima, matéria sobre o criador do herói brasileiro Raio Negro, publicada na revista.

09) Oficina HQ: A leitura online da revista tem sido positiva? É uma experiência a ser repensada?

Manoel de Souza: Da maneira como fazemos, em que só dá para ver o preview sem ler o texto, sim. Ajuda o leitor a conhecer a experimentar como é o interior da revista.


Acima, matéria publicada na Revista.

10) Oficina HQ: Você falou sobre “boas idéias” como algo que precisa pra que as coisas aconteçam. Tem algo mais que você deseja dizer àqueles que sonham ingressar na área de HQ profissionalmente, seja trabalhando de forma autoral, seja pra mercado estrangeiro?

Manoel de Souza: O segredo é trabalhar para o leitor. Mais do que um artista, o quadrinhista deve ser um prestador de entretenimento. O leitor deve sempre se sentir recompensado ao ler uma HQ. Se não houver essa recompensa, o autor gastou nanquim, papel e tempo a-tôa.


Acima, publicação da revista.

11) Oficina HQ: Não sei se você sabe mas, desde 2003, o Oficina HQ que começou com realização de Oficinas de Quadrinhos, tem realizado diversas atividades aqui em Salvador-Ba, e graças ao site, conseguimos dialogar cada vez mais com outras iniciativas e nos fazer conhecidos. Essa iniciativa que chamo de Ação cultural que, sinceramente, é uma forma de me manter próximo dos Quadrinhos, está de portas abertas pra vocês. É realmente um prazer enorme fazer essa entrevista e espero fazê-la pessoalmente, em breve. E conte-nos sempre suas novidades para que possamos deixar não apenas os internautas informados, mas nossos alunos.

Manoel de Souza: Eu que agradeço a oportunidade. Quando precisar, estou à disposição.

+ Voltar para o início do link Entrevista