
Imagens retiradas de uma das dezenas de publicações
importadas de M. Neto.
01)
Oficina HQ: Neto, você é fã do Batman
e colecionador de quadrinhos, motivo desta entrevista, portanto, gostaria
de saber inicialmente como você foi apresentado a Nona Arte, como
se deu essa paixão.
Maciel
Neto: É bom inicialmente definir o tempo em que isso aconteceu
para mim. Na época a televisão engatinhava, tínhamos
apenas um canal de TV, a Itapoan e os aparelhos eram todos em preto e
branco. O cinema era o grande lance e os quadrinhos funcionavam como um
cineminha de papel. A garotada se reunia aos domingos à tarde,
nas portas dos cinemas - Pax, Jandaia, Popular e Nazaré - para
trocar revistas em quadrinhos e na maioria das vezes, nem entrávamos
para assistir ao filme, o interessante era o “comércio”
dos quadrinhos, os bate-papos, as brincadeiras e as amizades que se formavam
a partir dali. Digo sempre, que aprendi a ler nas histórias em
quadrinhos, inicialmente através das onomatopéias e depois
pela urgente necessidade de entender o que se passava na história.
E apesar de tão grande importância educativa, os quadrinhos,
na minha época, ainda eram vistos com maus olhos, tanto pelos pais,
como por alguns educadores mais tradicionalistas. Ainda bem que isso mudou
e os quadrinhos têm hoje a importância que lhes era devida.
02)
Oficina HQ: E como o Homem-Morcego entrou nessa história?
Como ele conseguiu se destacar dos outros personagens e ganhar sua admiração?
O que você acha de mais interessante no personagem?
Maciel
Neto: Todo garoto tinha um herói preferido. Talvez o que
tenha mais me fascinado no personagem era a aura de mistério e
sombra que o envolvia, sem contar a interessante sensação
de solidão que ele transmite, tão comum nos nossos dias.
Apesar de começar a ler quadrinhos muito cedo, só comecei
a colecionar Batman na adolescência e daí não parei
mais, tenho quase tudo que foi publicado do personagem no Brasil, desde
1953 até hoje. Sem contar as edições estrangeiras.
Fui obrigado a me desfazer de várias outras coleções
de quadrinhos por falta de espaço físico. Mas valeu a pena.
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03) Oficina
HQ: Você é um privilegiado. Chegou a freqüentar
reunião do fanzine coordenado por Gutemberg Cruz, o “Na Era
dos Quadrinhos” (década de 70). Como você vê
os quadrinhos durante esse tempo que passou?
Maciel
Neto: É interessante o que aconteceu na década
de 70. Apesar dos quadrinhos editados na época terem melhorando
bastante o seu nível artístico, em relação
aos quadrinhos dos anos 30, 40 e 50, a década de 70 foi a década
das grandes republicações, a década da nostalgia.
A EBAL republicou em álbuns luxuosamente encadernados, Flash Gordon
no Planeta Mongo e as histórias seqüenciais, do grande Alex
Raymond. As primeiras histórias do Príncipe Valente de Hal
Foster, Capitão Marvel dos irmãos Binder e traço
de Charles Clarence Beck, Fantasma de Lee Falk, Tarzan (também
de Harold Foster), Brick Bradford, Superman. A Rio Gráfica e Editora
(hoje Globo) reprisou o primeiro número das séries do Cavaleiro
Negro, Fantasma, Família Buscapé, Mandrake, Nick Holmes.
A Editora Saber republicou histórias antigas de Flash Gordon, Mandrake,
Fantasma, de Lee Falk e seu primeiro desenhista, o extraordinário
Ray Moore e mais uma série de outros heróis, quase todos
publicados pela primeira vez nas décadas de 30 e 40. E essa onda
nostálgica foi em quase todo o mundo. Isso me leva a crer que,
apesar do avanço tecno-artístico a partir da década
de 70, a chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos (décadas
de 30 e 40) ainda continua imbatível.
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04) Oficina
HQ: Você acha que os quadrinhos evoluíram no que
diz respeito à compreensão deste como arte? È evidente
que tecnicamente, no que diz respeito à produção
e tecnologia, a evolução foi espantosa. Mas a impressão
que tenho, é que o incentivo cultural para o desenvolvimento desta
atividade, aqui na Bahia pelo menos, é nula. Você, durante
esse período, conheceu alguma política cultural a favor
da produção/profissionalização dos Quadrinhos?
Maciel
Neto: Sem dúvida que os quadrinhos evoluíram, porém
creio que o incentivo cultural para produção/profissionalização,
continua o mesmo de 30 anos atrás, ou seja, quase nenhum. É
muito difícil concorrer com os bem organizados sindicatos norte-americanos.
No Brasil inteiro, só conheço uma experiência realmente
bem sucedida, que é a de Maurício de Souza, enquanto temos
tanta gente boa por aí, incluindo você, Wilton, com sua Dona
Dedé, Cedraz com Xaxado e sua turma, Caó com Valdemar e
o Porco com rabo de Pavão, isso falando somente na Bahia, sem contar
os outros estados. Seria interessante que a política cultural no
país, fosse um pouco mais voltada para os quadrinhos, que quando
bem estruturada, é uma fonte segura de retorno garantido.

05)
Oficina HQ: Quadrinhos é coisa de criança?
Maciel
Neto: É sim. Claro! É para a criança que
todos nós temos dentro da gente. E além do lado lúdico,
de sonho, os quadrinhos têm uma importância muito maior do
que se imagina. Foram os heróis de papel que ajudaram aos aliados
a vencerem a 2ª Guerra Mundial, quando, após um apelo do próprio
Presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, os seus autores engajaram os
seus heróis nas frentes de batalha, combatendo os japoneses e alemães,
levantando a moral dos soldados americanos, tão distantes de casa.
Não foi à toa que Goebells, o Ministro de Propaganda do
3º Reich, disse que o Superman era judeu. Não faz muito, após
a guerra da Bósnia-Herzegovina, o Departamento de Estado Americano
e a UNICEF, a título de ajuda humanitária, publicaram livretos
com o Superman e o Batman, ensinando as crianças como evitar as
minas terrestres, que ainda se espalhavam pelo país, após
o término da guerra civil. Sem falar que o símbolo do Batman
é um dos ícones mais conhecido de todos os tempos. Precisa
mais?
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M. Neto Escreveu um livro que é um verdadeiro Manual
de Instruções sobre o Batman no Brasil. Ainda não
publicado e sem Editora. |
06) Oficina
HQ: Conta um pouco de sua experiência como escritor. É
verdade que você escreveu um livro sobre o Batman e ainda não
apresentou a nenhuma Editora?
Maciel Neto: É verdade. Tenho um livro quase pronto sobre
o Batman. Digo quase pronto, porque o personagem é vivo, está
acontecendo, e sempre temos de atualizá-lo. Na parte de filmes
e seriados acrescentei, agora, a ficha técnica e fotos dos cartazes
do novo filme “Batman Begins”. É um livro de consultas
bastante completo, para fanáticos, com a biografia dos seus criadores
e a de dezenas de desenhistas e roteiristas que trabalharam com o personagem,
as tiras de jornais, todos os filmes e seriados produzidos, com a sinopse
e toda a ficha técnica, a história de todos os seus auxiliares
(Alfred, Comissário Gordon, Bat-cão, Mulher Morcego, entre
outros.), seus mais temidos adversários, curiosidades, o Batman
no Brasil com sua primeira aparição na revista O Lobinho,
de Adolfo Aizen, poucos meses após ser lançado nos EUA,
suas primeiras capas brasileiras, enfim, um livro para batmaníacos,
onde fiz um trabalho de pesquisa de mais de oito anos, porém ainda
não apresentei a nenhuma editora.
07)
Oficina HQ: O Batman está perto de completar 70
anos. Poderia ser uma ótima ocasião para lançar seu
livro, não?
Maciel Neto: Seria uma ótima oportunidade. Mas fica aí
a sugestão, se alguma editora se interessar, favor entrar em contato
com esse site.
08)
Oficina HQ: Você conhece algum outro colecionador
de Quadrinhos dentro ou fora da Bahia?
Maciel
Neto: Na Bahia tenho os amigos quadrinistas, Caó, Aimar,
Calmon, todos na minha faixa etária, aquele pessoal que trocava
revistas na porta do cinema...e fora da Bahia, mais alguns.
09) Oficina HQ: Não dá pra perder a oportunidade
de te perguntar o que você acha da atividade da atuação
do Projeto Oficina HQ.
Maciel Neto: Acho excelente o Projeto Oficina HQ, é uma
forma importante de divulgar e incentivar a arte e a cultura, de que o
país precisa tanto. É necessário que se abra sempre
esse leque de opções como vocês estão fazendo,
organizando exposições, simpósios, workshops, ministrando
cursos sobre como fazer quadrinhos e o mais importante, o projeto educativo
de parceria com empresas e ONG’s, para comunidades carentes.

Alguém
tem dúvidas de quem foi que criou a mini saia? Só tem
dúvida quem não conhece Flash Gordon e Alex Raymond. |
10)
Oficina HQ: Dá um recado aí pra os admiradores
dessa arte, que muitas vezes ainda enfrentam preconceitos, pela falta
de compreensão de grande parte da população, que
não assimilou ainda a riqueza dos quadrinhos e que essa é
uma arte para qualquer idade.
Maciel
Neto: Há algum tempo atrás, a maioria das pessoas
tinham receio ou vergonha de falar que liam e gostavam de Histórias
em Quadrinhos. Ainda bem que hoje, isso mudou bastante, os quadrinhos
estão agora nos maiores museus do mundo e influenciam bastante
as artes plásticas, o cinema e os costumes de um modo geral, mas
infelizmente, ainda falta muito, para serem reconhecidas oficialmente
como a Nona Arte, por mérito e direito de fato.
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