+ Entrevista
Maciel Neto

Nosso amigo Maciel Neto é provavelmente o maior ou um dos maiores colecionadores do Homem-Morcego no Brasil. Estivemos em sua residência e conferimos todo o material que é guardado com todo o cuidado, aliás cuidado necessário para manter intacta cada Edição do Batman (que são devidamente catalogadas e organizadas). São muitas produções, de diversas partes do mundo que ele coleciona.

Mas o M. Neto, tem muito o que falar. Ele chegou a participar de uma das reuniões do "Na Era dos Quadrinhos"do nosso querido Gutemberg Cruz
, e nessa mesma época curtiu as trocas de quadrinhos que aconteciam nas portas dos cinemas de Salvador. Tem preciosidades de Flash Gordon, Tarzan.

O publicitário nos recebeu em sua residência e nos mostrou seu acervo e de HQ.

Entrevista em 10/2005 foi feita por Wilton Bernardo

Imagens retiradas de uma das dezenas de publicações importadas de M. Neto.

01) Oficina HQ: Neto, você é fã do Batman e colecionador de quadrinhos, motivo desta entrevista, portanto, gostaria de saber inicialmente como você foi apresentado a Nona Arte, como se deu essa paixão.

Maciel Neto: É bom inicialmente definir o tempo em que isso aconteceu para mim. Na época a televisão engatinhava, tínhamos apenas um canal de TV, a Itapoan e os aparelhos eram todos em preto e branco. O cinema era o grande lance e os quadrinhos funcionavam como um cineminha de papel. A garotada se reunia aos domingos à tarde, nas portas dos cinemas - Pax, Jandaia, Popular e Nazaré - para trocar revistas em quadrinhos e na maioria das vezes, nem entrávamos para assistir ao filme, o interessante era o “comércio” dos quadrinhos, os bate-papos, as brincadeiras e as amizades que se formavam a partir dali. Digo sempre, que aprendi a ler nas histórias em quadrinhos, inicialmente através das onomatopéias e depois pela urgente necessidade de entender o que se passava na história. E apesar de tão grande importância educativa, os quadrinhos, na minha época, ainda eram vistos com maus olhos, tanto pelos pais, como por alguns educadores mais tradicionalistas. Ainda bem que isso mudou e os quadrinhos têm hoje a importância que lhes era devida.


02) Oficina HQ: E como o Homem-Morcego entrou nessa história? Como ele conseguiu se destacar dos outros personagens e ganhar sua admiração? O que você acha de mais interessante no personagem?

Maciel Neto: Todo garoto tinha um herói preferido. Talvez o que tenha mais me fascinado no personagem era a aura de mistério e sombra que o envolvia, sem contar a interessante sensação de solidão que ele transmite, tão comum nos nossos dias. Apesar de começar a ler quadrinhos muito cedo, só comecei a colecionar Batman na adolescência e daí não parei mais, tenho quase tudo que foi publicado do personagem no Brasil, desde 1953 até hoje. Sem contar as edições estrangeiras. Fui obrigado a me desfazer de várias outras coleções de quadrinhos por falta de espaço físico. Mas valeu a pena.

03) Oficina HQ: Você é um privilegiado. Chegou a freqüentar reunião do fanzine coordenado por Gutemberg Cruz, o “Na Era dos Quadrinhos” (década de 70). Como você vê os quadrinhos durante esse tempo que passou?

Maciel Neto: É interessante o que aconteceu na década de 70. Apesar dos quadrinhos editados na época terem melhorando bastante o seu nível artístico, em relação aos quadrinhos dos anos 30, 40 e 50, a década de 70 foi a década das grandes republicações, a década da nostalgia. A EBAL republicou em álbuns luxuosamente encadernados, Flash Gordon no Planeta Mongo e as histórias seqüenciais, do grande Alex Raymond. As primeiras histórias do Príncipe Valente de Hal Foster, Capitão Marvel dos irmãos Binder e traço de Charles Clarence Beck, Fantasma de Lee Falk, Tarzan (também de Harold Foster), Brick Bradford, Superman. A Rio Gráfica e Editora (hoje Globo) reprisou o primeiro número das séries do Cavaleiro Negro, Fantasma, Família Buscapé, Mandrake, Nick Holmes. A Editora Saber republicou histórias antigas de Flash Gordon, Mandrake, Fantasma, de Lee Falk e seu primeiro desenhista, o extraordinário Ray Moore e mais uma série de outros heróis, quase todos publicados pela primeira vez nas décadas de 30 e 40. E essa onda nostálgica foi em quase todo o mundo. Isso me leva a crer que, apesar do avanço tecno-artístico a partir da década de 70, a chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos (décadas de 30 e 40) ainda continua imbatível.

04) Oficina HQ: Você acha que os quadrinhos evoluíram no que diz respeito à compreensão deste como arte? È evidente que tecnicamente, no que diz respeito à produção e tecnologia, a evolução foi espantosa. Mas a impressão que tenho, é que o incentivo cultural para o desenvolvimento desta atividade, aqui na Bahia pelo menos, é nula. Você, durante esse período, conheceu alguma política cultural a favor da produção/profissionalização dos Quadrinhos?

Maciel Neto: Sem dúvida que os quadrinhos evoluíram, porém creio que o incentivo cultural para produção/profissionalização, continua o mesmo de 30 anos atrás, ou seja, quase nenhum. É muito difícil concorrer com os bem organizados sindicatos norte-americanos. No Brasil inteiro, só conheço uma experiência realmente bem sucedida, que é a de Maurício de Souza, enquanto temos tanta gente boa por aí, incluindo você, Wilton, com sua Dona Dedé, Cedraz com Xaxado e sua turma, Caó com Valdemar e o Porco com rabo de Pavão, isso falando somente na Bahia, sem contar os outros estados. Seria interessante que a política cultural no país, fosse um pouco mais voltada para os quadrinhos, que quando bem estruturada, é uma fonte segura de retorno garantido.



05) Oficina HQ: Quadrinhos é coisa de criança?

Maciel Neto: É sim. Claro! É para a criança que todos nós temos dentro da gente. E além do lado lúdico, de sonho, os quadrinhos têm uma importância muito maior do que se imagina. Foram os heróis de papel que ajudaram aos aliados a vencerem a 2ª Guerra Mundial, quando, após um apelo do próprio Presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, os seus autores engajaram os seus heróis nas frentes de batalha, combatendo os japoneses e alemães, levantando a moral dos soldados americanos, tão distantes de casa. Não foi à toa que Goebells, o Ministro de Propaganda do 3º Reich, disse que o Superman era judeu. Não faz muito, após a guerra da Bósnia-Herzegovina, o Departamento de Estado Americano e a UNICEF, a título de ajuda humanitária, publicaram livretos com o Superman e o Batman, ensinando as crianças como evitar as minas terrestres, que ainda se espalhavam pelo país, após o término da guerra civil. Sem falar que o símbolo do Batman é um dos ícones mais conhecido de todos os tempos. Precisa mais?

M. Neto Escreveu um livro que é um verdadeiro Manual de Instruções sobre o Batman no Brasil. Ainda não publicado e sem Editora.

06) Oficina HQ: Conta um pouco de sua experiência como escritor. É verdade que você escreveu um livro sobre o Batman e ainda não apresentou a nenhuma Editora?

Maciel Neto
: É verdade. Tenho um livro quase pronto sobre o Batman. Digo quase pronto, porque o personagem é vivo, está acontecendo, e sempre temos de atualizá-lo. Na parte de filmes e seriados acrescentei, agora, a ficha técnica e fotos dos cartazes do novo filme “Batman Begins”. É um livro de consultas bastante completo, para fanáticos, com a biografia dos seus criadores e a de dezenas de desenhistas e roteiristas que trabalharam com o personagem, as tiras de jornais, todos os filmes e seriados produzidos, com a sinopse e toda a ficha técnica, a história de todos os seus auxiliares (Alfred, Comissário Gordon, Bat-cão, Mulher Morcego, entre outros.), seus mais temidos adversários, curiosidades, o Batman no Brasil com sua primeira aparição na revista O Lobinho, de Adolfo Aizen, poucos meses após ser lançado nos EUA, suas primeiras capas brasileiras, enfim, um livro para batmaníacos, onde fiz um trabalho de pesquisa de mais de oito anos, porém ainda não apresentei a nenhuma editora.


07) Oficina HQ: O Batman está perto de completar 70 anos. Poderia ser uma ótima ocasião para lançar seu livro, não?

Maciel Neto
: Seria uma ótima oportunidade. Mas fica aí a sugestão, se alguma editora se interessar, favor entrar em contato com esse site.


08) Oficina HQ: Você conhece algum outro colecionador de Quadrinhos dentro ou fora da Bahia?

Maciel Neto: Na Bahia tenho os amigos quadrinistas, Caó, Aimar, Calmon, todos na minha faixa etária, aquele pessoal que trocava revistas na porta do cinema...e fora da Bahia, mais alguns.


09) Oficina HQ: Não dá pra perder a oportunidade de te perguntar o que você acha da atividade da atuação do Projeto Oficina HQ.

Maciel Neto
: Acho excelente o Projeto Oficina HQ, é uma forma importante de divulgar e incentivar a arte e a cultura, de que o país precisa tanto. É necessário que se abra sempre esse leque de opções como vocês estão fazendo, organizando exposições, simpósios, workshops, ministrando cursos sobre como fazer quadrinhos e o mais importante, o projeto educativo de parceria com empresas e ONG’s, para comunidades carentes.


Alguém tem dúvidas de quem foi que criou a mini saia? Só tem dúvida quem não conhece Flash Gordon e Alex Raymond.

10) Oficina HQ: Dá um recado aí pra os admiradores dessa arte, que muitas vezes ainda enfrentam preconceitos, pela falta de compreensão de grande parte da população, que não assimilou ainda a riqueza dos quadrinhos e que essa é uma arte para qualquer idade.

Maciel Neto: Há algum tempo atrás, a maioria das pessoas tinham receio ou vergonha de falar que liam e gostavam de Histórias em Quadrinhos. Ainda bem que hoje, isso mudou bastante, os quadrinhos estão agora nos maiores museus do mundo e influenciam bastante as artes plásticas, o cinema e os costumes de um modo geral, mas infelizmente, ainda falta muito, para serem reconhecidas oficialmente como a Nona Arte, por mérito e direito de fato.

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