+ Entrevista
CAIO COUTINHO, FÁBIO FRANCO e LEANDRO SILVEIRA

Entrevista realizada em novembro/ 2007
por Wilton Bernardo



Os jornalistas lançaram a “VANGUARDA”, uma reportagem em Quadrinhos sobre 4 períodos do Movimento Estudantil na Bahia. Resolveram realizar o trabalho na conclusão do curso de jornalismo e agora, todo o resultado da pesquisa pode ser conferido em 4 edições do Jornal A Tarde, durante as terças-feiras. A datas de publicação: 1ª. Parte(06/11/07); 2a parte(13/11/07); 3a. parte(20/11/07) e 4a. parte(27/11/07). Eles falaram com o Oficina HQ que já os conhece há tempos, pois já participaram da nossa Oficina de Quadrinhos.

1) Oficina HQ: Fazer essa entrevista com vocês é importante por todos os motivos. Vocês se formaram em Jornalismo e resolveram como conclusão de curso, fazer uma reportagem ou jornalismo em Quadrinhos. Como foi que aconteceu essa decisão?

Leandro: Eu sou fanático por quadrinhos e, em meio à leitura de revistas do gênero, conheci o trabalho de Joe Sacco, que é o autor de livros reportagem em quadrinhos. Gostei tanto do trabalho dele que resolvi fazer algo parecido, só que para Web. Foi quando convidei Caio, que já trabalhava como roteirista, a participar da

idéia. No entanto, em paralelo a isso, estávamos começado o semestre na Faculdade e deveríamos apresentar um pré-projeto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Tanto a minha proposta quanto a de Caio foram recusadas, então que sugeri fazermos o projeto de jornalismo em quadrinhos na Faculdade. Porém, precisamos fazer algumas modificações: ao invés de site, o material seria impresso e ao invés de matérias da editoria de cidades faríamos uma grande reportagem com um tema histórico. No começo todo mundo riu da gente, dizendo que isso não era jornalismo, mas depois conseguimos provar que poderia ser feito, embora fosse dar muito trabalho. Foi aí que Fábio entrou. Como o trabalho era muito grande, uma das recomendações da coordenadora do curso, Mônica celestino, foi que integrássemos mais uma pessoa na equipe, e ele foi o escolhido. Deu um pouco de trabalho, mas ele aceitou. No final, até a nossa orientadora, Ana Spannenberg, comprou a idéia e hoje é nossa parceira na produção de novas reportagens.



2) Oficina HQ: É interessante demais essa realização de vocês não apenas porque pegaram um assunto ou tema interessante. Não apenas porque o trabalho de conclusão do curso foi publicado. Por isso e todo resto das etapas que realizaram. Foram felizes na “idéia”, “forma”, “estrutura”, se saíram bem na habilidade e na “superfície”, ou seja, em 1 ano, conseguiram adquirir a preparação técnica, conteúdo e publicaram a história em Quadrinhos de vocês no jornal de maior circulação da Bahia. Muitas pessoas que desejam publicar quadrinhos, além daqueles que são especificamente leitores de HQ lerão essa entrevista. Conta pra eles, como foi esse processo.

Caio: A idéia foi nova para todo mundo, mas foi pior para mim e para Fábio, por exemplo, que não tínhamos muita intimidade e até interesse mesmo pelos quadrinhos. Dessa forma, não conhecíamos a linguagem direito, nem como era feito, o processo etc. Então, precisamos estudar muito. Um das coisas que me ajudou, na verdade a mim e a Léo, foi o curso de quadrinhos que fizemos com Wilton. O curso deu uma noção básica sobre a linguagem e o processo de produção dos quadrinhos, foi o ponta pé inicial para abraçarmos de vez a idéia de fazer jornalismo em quadrinhos. A partir daí, como você disse, foi um ano de pesquisa intensa: livros e livros sobre quadrinhos, além de muitas revistas e histórias em quadrinhos. A gente teve que imergir totalmente nesse universo. Feito isso, partimos para a produção da reportagem, ou seja: entrevistas, pesquisa histórica, pesquisa iconográfica e de linguagem, produção da reportagem/argumento, elaboração dos roteiros, desenhos, arte finalização, a apresentação para a banca e, enfim a publicação no A Tarde.
O diretor de conteúdo de A Tarde, Ricardo Mendes, é professor lá na FIB e ficou interessado em ver o projeto assim que ele fosse apresentado à banca. Foi o que fizemos. Depois da aprovação sem ressalvas, levamos o trabalho para que ele analisasse. Ele leu, gostou e resolveu apostar na idéia. O resultado é a publicação de um dos capítulos (no total são quatro) todas as terças de novembro no Caderno Dez, no Jornal A Tarde.


3) Oficina HQ: Mas voltando ao momento da escolha da “forma” de apresentação do trabalho, ou seja, de fazer a reportagem em Quadrinhos, como foi a reação do(s) professor(res)? Houve alguma resistência? Se houve, como conseguiram convencer o professor?

Leandro: Todo mundo riu da gente. Pelo menos no começo, como tudo que é inovador, houve um estranhamento das pessoas com relação à forma. Todos estamos acostumados a ver, como TCC, livros reportagem, grandes reportagens, documentários e reportagens televisivas e radiofônicas, mas ninguém nunca tinha ouvido falar em Jornalismo em Quadrinhos. Então mostramos que o jornalismo, tradicionalmente, adequa, de certa forma, sua linguagem ao veículo ao qual está atrelado. Isso quer dizer que, quanto à forma, uma matéria de rádio é diferente de uma matéria de Tv, que é deferente de uma matéria de impresso. Então, porque não se adequar aos quadrinhos? Foi isso que mostramos. Em todos esses casos e no jornalismo em quadrinhos, a forma de produção é a mesma, ou muito parecida, pois são feitas pautas, os fatos são apurados, as fontes entrevistadas, a matéria é produzida, editada e veiculada. Ou seja, a rotina produtiva do jornalismo se mantém e, junto com ela, as suas principais características.

4) Oficina HQ: O conteúdo é uma das etapas mais importantes, seja pra fazer quadrinhos ou qualquer outro trabalho, certo? Porquê a escolha do assunto “Movimento Estudantil”? Como organizaram e adquiriram as informações sobre esses períodos abordados nos quadrinhos desenvolvidos por vocês?

R: Fábio: Certo. A escolha do tema é uma das etapas mais importantes no jornalismo em quadrinhos, porque além de ter que ser do interesse de todos, o fato precisa render muitas imagens. Baseado nessas duas premissas, escolhemos narrar histórias do Movimento Estudantil (ME). A partir disso, fomos pesquisar. Estudamos diversos livros e entrevistamos cerca de cinco especialistas no tema entre sociólogos e historiadores. Uma das informações que nos chamo a atenção foi que o ME baiano foi pioneiro no Brasil em diversos momentos importantes da história, só que isso não está registrado. O que a gente encontrava eram informações sobre o Movimento no Rio e em São Paulo, principalmente. Só que comparando as datas, em jornais, das manifestações aqui e nesses lugares ficava evidente que os baianos saiam na frente, confirmando o que os especialistas haviam dito. Então, resolvemos contar esses episódios. Com isso definido, começamos a procurar as fontes: quem seriam os personagens principais da nossa HQ. Então, chegamos a João Falcão, líder no ME e diretor do Partido Comunista na Bahia, em 1942; Carlos Sarno, autor da peça de teatro que desencadeou a primeira greve estudantil depois do AI5; Javier Alfaya, primeiro presidente eleito da UNE depois do AI; e, por fim, Juremar Oliveira, presidente da União Baiana de Estudantes Secundaristas (UBES) durante as manifestações da Revolta do Buzú. A partir do depoimento dessas pessoas e dos comentários dos especialistas, construímos a narrativa.

5) Oficina HQ: Levando em conta todo o processo de realização desse trabalho, qual foi a etapa mais desafiadora? Por quê?

Caio: Várias etapas foram desafiadoras, principalmente porque nunca tínhamos feito quadrinhos, então tudo era novo e, como tal, desafiador. Começou com a elaboração do roteiro, pois, como ninguém havia feito uma história como a nossa, não havia um processo de produção pronto, ao qual pudéssemos seguir. Então tivemos que criar uma forma de fazer juntando o processo produtivo do jornalismo e o dos quadrinhos, criando um modelo híbrido, que pudesse abarcar as duas linguagens, preservando suas características básicas, sem desconfigurá-las, entende? A segunda etapa mais desafiadora foi o relacionamento com os desenhistas. Como nenhum de nós desenha, tivemos que contar com o apoio dos desenhistas e tivemos alguns problemas com isso, porque estimávamos um tempo que não era real para eles, complicando um pouco o trabalho deles e o nosso prazo, que não podia ser adiado. Mas, tudo foi um aprendizado e proporcionou experiências que vão agregar muito aos nossos próximos trabalhos. Isso que é importante.

6) Oficina HQ: Vocês são os idealizadores do trabalho certo? Mas houve mais pessoas envolvidas não é? Quem foram e qual foi a participação deles?

Fábio: Exatamente. Podemos começar falando da Oficina HQ, que Léo e Caio fizeram antes de começarmos o projeto. Foi importante porque o que eles aprenderam lá deu a diretriz inicial do trabalho. Segundo e não menos importante, contamos com o trabalho de nosso amigos, seja para desenhar quando para diagramar. Thiago Durães, Rodolfo Troll e Franklin Mendes desenharam o trabalho sem cobrar nada ou cobrando apenas um valor simbólico, se levarmos em consideração o valor desse tipo de trabalho no mercado. Uma outra peça importante no trabalho foi o designer, José Roberto Almeida (Zé), que não só diagramou o trabalho de graça, como ajudou na concepção, participando efetivamente do projeto. Não posso deixar de falar da nossa orientadora, Ana Spannenberg, que não só aceitou o desafio de nos orientar, como, assim como outros, faz parte da equipe que continua trabalhando em outras reportagens.

7) Oficina HQ: Essa foi a primeira historia em Quadrinho de vocês? Como tem sido a receptividade? Vocês ficaram felizes com o resultado?

Caio: A gente não tem do que se queixar. Nem nos melhores sonhos a gente achou que a receptividade ia ser tão boa. Tanto o público em geral, quanto jornalistas e outros especialistas na área estão gostando e validando o trabalho como pioneiro do gênero no Brasil. Em resposta a isso, estamos trabalhando no desenvolvimento de mais duas reportagens e de uma revista eletrônica em quadrinhos, que deve ser lançada no inicio de dezembro. A revista vai contar com uma série de participações especiais como a do designer Aristides Dutra (principal pesquisador de jornalismo em quadrinhos no Brasil), dos desenhistas Flávio Luís e Hector Salas, além das jornalistas Doris Miranda e Lilian Reichert. A expectativa é que o público também receba as novas produções de braços abertos.

8) Oficina HQ: Como parte do embasamento técnico vocês devem ter lido algumas histórias em Quadrinhos. Podem citar algumas?

Leandro: Por se tratar da principal referência de jornalismo em quadrinhos do mundo, tivemos que ler, com prazer, todos os livros reportagem de Joe Sacco. A intenção era ver, mais ou menos, como ele contava a história e como ele conseguiu juntar o jornalismo e os quadrinhos de maneira tão eficiente. Além de Joe Sacco, outra obra obrigatória para quem quer entrar nessa nova vertente do jornalismo é Maus, de Art Spiegelmas. Ambos são imperdíveis.


9) Oficina HQ: Como vocês vêem o interesse do jornal em publicar o trabalho de vocês? Vocês já sabiam que isso aconteceria? E agora?

Fábio: Para falar a verdade, a gente tinha uma expectativa em relação a isso. O nosso trabalho foi aprovado com dez pela banca avaliadora e todos sugeriram a publicação. Só nos restava achar o veículo certo. E para o A Tarde o trabalho caiu como uma luva, pois, há algum tempo, eles estão apostando na utilização de novas linguagens e os jornais impressos em geral estão precisando formar público leitor, principalmente depois do advento da Internet. Dessa forma, foi juntar o útil ao agradável.


10) Oficina HQ: Pessoal, parabéns a todos! Eu fico muito feliz e orgulhoso de ter tido vocês participando da Oficina de Quadrinhos. Vocês têm realizado palestras falando sobre o trabalho. Já estão preparando alguma novidade que possam contar pra nós?

Caio: É, a gente está se arriscando a contar nossa experiência para outros estudantes. Na verdade, não é bem uma palestra, é uma forma de dizer para o pessoal que é possível fazer trabalhos legais e inovadores no final e durante a faculdade. O mercado está carente de novas idéias e a faculdade tem que ser pólo de criação, afinal é o nosso espaço de experimentar. No nosso caso, a experiência está virando trabalho sério e isso é bacana, precisa ser divulgado. Além disso, estamos falando um pouco sobre jornalismo em quadrinhos. A gente quer difundir mesmo essa nova possibilidade para os quadrinhos e para o jornalismo. Vai ser legal ver mais e mais reportagens em quadrinhos nos jornais e pensar que nós, de certa forma, somos responsáveis por isso.

Ah! A única novidade nesse sentido é que no próximo ano, a convite de Wilton, eu vou fazer parte da equipe da Oficina HQ e a gente vai poder bater um papo melhor a respeito do que é roteiro, como deve ser feito, o que ele deve dizer etc.


11) Oficina HQ: Deixa um recado ai pra o pessoal que gosta de ler quadrinhos; pra aqueles que querem ver seu trabalho publicado. Obrigado ela entrevista.

Leandro: A dica pra quem quer gosta de quadrinhos e quer, de alguma maneira, poder usar isso como profissão, é ter boas idéias. Tenha uma boa idéia, construa uma boa história, seja ela fictícia, real ou uma reportagem, e tentem implantar isso nos quadrinhos. Tente, quem sabe não dá certo.


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