| + Entrevista | |||
|
|||
|
idéia.
No entanto,
em paralelo a isso, estávamos começado o semestre na Faculdade
e deveríamos apresentar um pré-projeto do Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC). Tanto a minha proposta quanto a de
Caio foram recusadas, então que sugeri fazermos o projeto de
jornalismo em quadrinhos na Faculdade. Porém, precisamos fazer
algumas modificações: ao invés de site, o material
seria impresso e ao invés de matérias da editoria de cidades
faríamos uma grande reportagem com um tema histórico.
No começo todo mundo riu da gente, dizendo que isso não
era jornalismo, mas depois conseguimos provar que poderia ser feito,
embora fosse dar muito trabalho. Foi aí que Fábio entrou.
Como o trabalho era muito grande, uma das recomendações
da coordenadora do curso, Mônica celestino, foi que integrássemos
mais uma pessoa na equipe, e ele foi o escolhido. Deu um pouco de trabalho,
mas ele aceitou. No final, até a nossa orientadora, Ana Spannenberg,
comprou a idéia e hoje é nossa parceira na produção
de novas reportagens. Caio:
A idéia foi nova para todo mundo, mas foi pior para mim e para
Fábio, por exemplo, que não tínhamos muita intimidade
e até interesse mesmo pelos quadrinhos. Dessa forma, não
conhecíamos a linguagem direito, nem como era feito, o processo
etc. Então, precisamos estudar muito. Um das coisas que me ajudou,
na verdade a mim e a Léo, foi o curso de quadrinhos que fizemos
com Wilton. O curso deu uma noção básica sobre
a linguagem e o processo de produção dos quadrinhos, foi
o ponta pé inicial para abraçarmos de vez a idéia
de fazer jornalismo em quadrinhos. A partir daí, como você
disse, foi um ano de pesquisa intensa: livros e livros sobre quadrinhos,
além de muitas revistas e histórias em quadrinhos. A gente
teve que imergir totalmente nesse universo. Feito isso, partimos para
a produção da reportagem, ou seja: entrevistas, pesquisa
histórica, pesquisa iconográfica e de linguagem, produção
da reportagem/argumento, elaboração dos roteiros, desenhos,
arte finalização, a apresentação para a
banca e, enfim a publicação no A Tarde. Leandro:
Todo mundo riu da gente. Pelo menos no começo, como tudo que
é inovador, houve um estranhamento das pessoas com relação
à forma. Todos estamos acostumados a ver, como TCC, livros reportagem,
grandes reportagens, documentários e reportagens televisivas
e radiofônicas, mas ninguém nunca tinha ouvido falar em
Jornalismo em Quadrinhos. Então mostramos que o jornalismo, tradicionalmente,
adequa, de certa forma, sua linguagem ao veículo ao qual está
atrelado. Isso quer dizer que, quanto à forma, uma matéria
de rádio é diferente de uma matéria de Tv, que
é deferente de uma matéria de impresso. Então,
porque não se adequar aos quadrinhos? Foi isso que mostramos.
Em todos esses casos e no jornalismo em quadrinhos, a forma de produção
é a mesma, ou muito parecida, pois são feitas pautas,
os fatos são apurados, as fontes entrevistadas, a matéria
é produzida, editada e veiculada. Ou seja, a rotina produtiva
do jornalismo se mantém e, junto com ela, as suas principais
características. R: Fábio:
Certo. A escolha do tema é uma das etapas mais importantes no
jornalismo em quadrinhos, porque além de ter que ser do interesse
de todos, o fato precisa render muitas imagens. Baseado nessas duas
premissas, escolhemos narrar histórias do Movimento Estudantil
(ME). A partir disso, fomos pesquisar. Estudamos diversos livros e entrevistamos
cerca de cinco especialistas no tema entre sociólogos e historiadores.
Uma das informações que nos chamo a atenção
foi que o ME baiano foi pioneiro no Brasil em diversos momentos importantes
da história, só que isso não está registrado.
O que a gente encontrava eram informações sobre o Movimento
no Rio e em São Paulo, principalmente. Só que comparando
as datas, em jornais, das manifestações aqui e nesses
lugares ficava evidente que os baianos saiam na frente, confirmando
o que os especialistas haviam dito. Então, resolvemos contar
esses episódios. Com isso definido, começamos a procurar
as fontes: quem seriam os personagens principais da nossa HQ. Então,
chegamos a João Falcão, líder no ME e diretor do
Partido Comunista na Bahia, em 1942; Carlos Sarno, autor da peça
de teatro que desencadeou a primeira greve estudantil depois do AI5;
Javier Alfaya, primeiro presidente eleito da UNE depois do AI; e, por
fim, Juremar Oliveira, presidente da União Baiana de Estudantes
Secundaristas (UBES) durante as manifestações da Revolta
do Buzú. A partir do depoimento dessas pessoas e dos comentários
dos especialistas, construímos a narrativa. Caio:
Várias etapas foram desafiadoras, principalmente porque nunca
tínhamos feito quadrinhos, então tudo era novo e, como
tal, desafiador. Começou com a elaboração do roteiro,
pois, como ninguém havia feito uma história como a nossa,
não havia um processo de produção pronto, ao qual
pudéssemos seguir. Então tivemos que criar uma forma de
fazer juntando o processo produtivo do jornalismo e o dos quadrinhos,
criando um modelo híbrido, que pudesse abarcar as duas linguagens,
preservando suas características básicas, sem desconfigurá-las,
entende? A segunda etapa mais desafiadora foi o relacionamento com os
desenhistas. Como nenhum de nós desenha, tivemos que contar com
o apoio dos desenhistas e tivemos alguns problemas com isso, porque
estimávamos um tempo que não era real para eles, complicando
um pouco o trabalho deles e o nosso prazo, que não podia ser
adiado. Mas, tudo foi um aprendizado e proporcionou experiências
que vão agregar muito aos nossos próximos trabalhos. Isso
que é importante. Fábio:
Exatamente. Podemos começar falando da Oficina HQ, que Léo
e Caio fizeram antes de começarmos o projeto. Foi importante
porque o que eles aprenderam lá deu a diretriz inicial do trabalho.
Segundo e não menos importante, contamos com o trabalho de nosso
amigos, seja para desenhar quando para diagramar. Thiago Durães,
Rodolfo Troll e Franklin Mendes desenharam o trabalho sem cobrar nada
ou cobrando apenas um valor simbólico, se levarmos em consideração
o valor desse tipo de trabalho no mercado. Uma outra peça importante
no trabalho foi o designer, José Roberto Almeida (Zé),
que não só diagramou o trabalho de graça, como
ajudou na concepção, participando efetivamente do projeto.
Não posso deixar de falar da nossa orientadora, Ana Spannenberg,
que não só aceitou o desafio de nos orientar, como, assim
como outros, faz parte da equipe que continua trabalhando em outras
reportagens. Caio:
A gente não tem do que se queixar. Nem nos melhores sonhos a
gente achou que a receptividade ia ser tão boa. Tanto o público
em geral, quanto jornalistas e outros especialistas na área estão
gostando e validando o trabalho como pioneiro do gênero no Brasil.
Em resposta a isso, estamos trabalhando no desenvolvimento de mais duas
reportagens e de uma revista eletrônica em quadrinhos, que deve
ser lançada no inicio de dezembro. A revista vai contar com uma
série de participações especiais como a do designer
Aristides Dutra (principal pesquisador de jornalismo em quadrinhos no
Brasil), dos desenhistas Flávio Luís e Hector Salas, além
das jornalistas Doris Miranda e Lilian Reichert. A expectativa é
que o público também receba as novas produções
de braços abertos. Leandro: Por se tratar da principal referência de jornalismo em quadrinhos do mundo, tivemos que ler, com prazer, todos os livros reportagem de Joe Sacco. A intenção era ver, mais ou menos, como ele contava a história e como ele conseguiu juntar o jornalismo e os quadrinhos de maneira tão eficiente. Além de Joe Sacco, outra obra obrigatória para quem quer entrar nessa nova vertente do jornalismo é Maus, de Art Spiegelmas. Ambos são imperdíveis.
Fábio: Para falar a verdade, a gente tinha uma expectativa em relação a isso. O nosso trabalho foi aprovado com dez pela banca avaliadora e todos sugeriram a publicação. Só nos restava achar o veículo certo. E para o A Tarde o trabalho caiu como uma luva, pois, há algum tempo, eles estão apostando na utilização de novas linguagens e os jornais impressos em geral estão precisando formar público leitor, principalmente depois do advento da Internet. Dessa forma, foi juntar o útil ao agradável.
Caio: É, a gente está se arriscando a contar nossa experiência para outros estudantes. Na verdade, não é bem uma palestra, é uma forma de dizer para o pessoal que é possível fazer trabalhos legais e inovadores no final e durante a faculdade. O mercado está carente de novas idéias e a faculdade tem que ser pólo de criação, afinal é o nosso espaço de experimentar. No nosso caso, a experiência está virando trabalho sério e isso é bacana, precisa ser divulgado. Além disso, estamos falando um pouco sobre jornalismo em quadrinhos. A gente quer difundir mesmo essa nova possibilidade para os quadrinhos e para o jornalismo. Vai ser legal ver mais e mais reportagens em quadrinhos nos jornais e pensar que nós, de certa forma, somos responsáveis por isso. Ah! A única novidade nesse sentido é que no próximo ano, a convite de Wilton, eu vou fazer parte da equipe da Oficina HQ e a gente vai poder bater um papo melhor a respeito do que é roteiro, como deve ser feito, o que ele deve dizer etc.
Leandro:
A dica pra quem quer gosta de quadrinhos e quer, de alguma maneira,
poder usar isso como profissão, é ter boas idéias.
Tenha uma boa idéia, construa uma boa história, seja ela
fictícia, real ou uma reportagem, e tentem implantar isso nos
quadrinhos. Tente, quem sabe não dá certo. |