+ Entrevista

Gutemberg Cruz
Parte 2

Gonçalo Junior: E o quadrinho brasileiro, tem jeito? O que você conclui nesses vinte anos que vem acompanhando? Qual é a saída e que papel deve desempenhar os fanzines?
Gutemberg Cruz:
O Brasil estava vivendo um momento favorável na área de produção editorial de quadrinhos no início dos anos 90. Basta conferir que as dez revistas mais vendidas foram as de Maurício de Sousa (Mônica, Cebolinha, Cascão, Chico Bento, Magali, entre outros); Ziraldo voltou com Pererê e o Menino Maluquinho; Laerte e Luis Ge lançaram os Piratas do Tietê; César Sandoval com a Turma do Arrepio; Glauco com Geraldão; Fernando Gonsales com Níquel Náusea; Angeli com Chiclete com Banana. Fora isso tinha Angélica, Xuxa, Sérgio Malandro e outros astros da tevê em quadrinhos, além dos gibis eróticos desenhados no Brasil.

GJ: E hoje?
GC:
Bom, hoje o mercado produtor de quadrinhos no Brasil mostra um parque editorial predominantemente ocupado com reprodução de material estrangeiro. Poucas editoras apostam no autor nacional e, mesmo quando o fazem, limitam-se a aplicar naqueles mais consagrados de veda garantida. O nosso quadrinho ainda não viveu o seu melhor momento. Temos bons desenhistas, precisamos de mais argumentistas. Temos uma produção fanzinística enorme.

GJ: E o que fazer?
GC:
A saída está num maior profissionalismo de autor brasileiro de quadrinhos e na obtenção de maior qualidade da produção nacional. O leitor de hoje, seja ele de fanzine ou publicação de grandes editoras não se contenta com qualquer rabisco desajeitado. Ele exige técnica, bom argumento. As mini-séries estão aí para provar essa liberdade de criação que está se tendo entre os desenhistas estrangeiros (coisa que não aconteceu ainda nas tiras diárias devido aos sindicates que utilizam-se do tradicional código de ética). O mercado está aberto, há publicações para todos os gostos. Agora o que é preciso: as empresas acreditarem mais em nossos trabalhos, injetarem verbas publicitárias para manter a publicação nas bancas, livrarias e outros espaços alternativos. É preciso incentivo. O cinema brasileiro hoje está voltando à tona, isso é muito bom.

GJ: Incrível, mas o maldito código ainda sobrevive nos Estados Unidos, depois de 42 anos de castração. Essa liberdade do quadrinho de autor já chegou por aqui?
GC:
A tira mais libertária entre nós, em termos temático é a de Lage, na Tribuna da Bahia (que questiona os valores locais). Seria interessante nossos autores começarem a pensar a respeito dessas miniséries e trabalharem com esse tipo de quadrinho. Agora é preciso que o artista nacional continue na luta, na batalha por melhores espaços porque o editor não vai abrir as portas para ele sem mais nem menos. É preciso trabalhar, com profissionalismo. Ousar mais, ir além no seu trabalho.

GJ: Você está lançando seu segundo livro sobre quadrinhos e humor na Bahia. Fale um pouco dele e do primeiro volume.
GC:
Na Bahia o desenho de humor é desprezado como forma artística. A pouca importância dada à obra gráfica vem do preconceito que muitos estudiosos de arte alimentam em relação aos desenho e à gravura. Esses estudiosos só valorizam obras de parede, em vistosas molduras a óleo. A maioria dos grandes nomes da pintura realizou-se primeiro no desenho, na gravura. Resolvi contar um pouco da história do humor gráfico na Bahia. No primeiro livro ( O traço dos Mestres) enfoquei os trabalhos de Paraguassú, K-Lunga, Tishchenko, Sinézio Alves, Fernando Diniz e Gonzalo Cárcamo. No segundo (Feras do Humor Baiano), é a vez de Lage, Nildão e Setúbal, além de uma homenagem a Adolfo Aizen, da Ebal e o resgate dos primeiros quadrinhos do século passado na Bahia.

GJ: Existe algum projeto seu de complementar uma série de obras que dê um panorama dos quadrinhos e do humor gráfico na Bahia?
GC:
Meu projeto inicial é de fazer um mapeamento das artes gráficas na Bahia. Desde o século passado aos dias atuais, registrando o trabalho do poeta Castro Alves, do cineasta Glauber Rocha, do artista plástico Juarez Paraíso, do diretor de teatro Márcio Meireles e tantos outros que no início de carreira trabalharam com a caricatura, charge e quadrinhos. A lista é enorme. Fora isso, pretendo escrever um outro livro sobre o comportamento dos jovens com relação à música, literatura, cinema, as chamadas tribos urbanas, o jeito de vestir, de conversar e de se comportar na sociedade. Pretendo reunir também minhas melhores reportagens sobre cinema, música, literatura, artes plásticas e, claro, quadrinhos.

Oficina HQ (Wilton Bernardo): Sabemos que os Quadrinhos foram marginalizados principalmente por educadores mas que as coisas melhoraram bastante. Ao mesmo tempo, sabemos e não se pode negar que ainda há muito mal entendido, muita mente fechada para as possibilidades expressivas(até mesmo por muitos aspirantes a quadrinistas) e para a verdadeira importância dessa arte que não é um mero "desenhinho pra criança", nem tão pouco "forma de se iniciar uma pessoa na leitura";é tudo isso, mas também uma expressão artística que está longe de ser sub-categoria de qualquer outra arte. Estou falando tudo isso pra perguntar se você não acha que se os quadrinhos entrassem pelas portas da frente de uma Escola de Arte, da academia, não haveria mais respeito e até um incentivo de forma geral para o melhor entendimento, reconhecimento e até experimento dessa arte?? De uma forma direta ou indireta, não se estaria sendo mais um incentivo forte para a profissionalização? Para que, por exemplo, aquele estudante de arte, ou mesmo de comunicação ou publicidade que adora HQ, não precise fazer todas as atividades, todas as tarefas e pegar aquela sobra de tempo pra poder fazer os quadrinhos que ele tanto gosta?
GC: Durante décadas os quadrinhos foram marginalizados. Os pedagogos não aceitavam o poder que os quadrinhos exerce nas pessoas. O que eles não observavam é que as pessoas que lêem quadrinhos desde a infância, quando adulto possuem hábito de leitura. A leitura torna-se algo natural. Basta você visitar a Biblioteca Monteiro Lobato, no bairro de Nazaré e observar como a leitura é bem vinda. Lá foi um dos primeiros locais na Bahia (anos 50) a aceitar os quadrinhos. A bibliotecária Denise Tavares lutou contra todos para expor quadrinhos a garotada.
E,por não conhecer o alfabeto visual, esses pedagogos foram logo condenando. É uma pena saber que a Escola de Belas Artes não trabalha com quadrinhos. Já ministrei diversas palestras no local no tempo que o professor Juarez Paraíso, admirador de HQ, estava lá. Sei que tem muitos artistas plásticos esnobando os quadrinhos como arte menor,mas isso existe com todas as outras. São os de mente pequena e vai existir sempre. O que é preciso é lutar contra isso sempre apresentando atividades culturais, envolvendo a comunidade. Nos anos 70 ia dar palestra de quadrinhos no Pelourinho sobre a importância dos quadrinhos para crianças, filhas de prostitutas do local. Com isso, muita gente voltou às escolas e hoje é um cidadão, tem conhecimento de seus direitos e deveres, e mais, consciência. Falta nas pessoas hoje em dia esse saudável hábito de leitura.
Se deseja realmente mudar um pouco essa pasmaceira que está aí reúna pessoas de diversas áreas e realize debates sobre a relação da HQ com as artes plásticas, com o cinema, teatro,música, literatura e vai notar que muita coisa vai mudar no modo de conhecer a nona arte na localidade. Durante três décadas fundei um clube de quadrinhos onde passei a fazer palestras em escolas, shoppings, teatro, universidades etc, além de exposição sobre o assunto. Lançamos um fanzine, depois colunas em jornais, abrimos espaços para os novos talentos que hoje segue carreira. Plantamos uma semente numa época de ditadura, de pensamentos retrógrados, mas não desistimos. Fiz a minha parte e acho que agora é a vez de vocês.

Marko Ajdaric - Neorama): O que será feito para comemorar 30 anos de A Coisa, o melhor encarte sobre quadrinhos num jornal diário do Brasil em 1975?
GC:
A Coisa vai completar 30 anos e acho que não será comemorado porque o grupo que produziu está disperso. Cada um em lugar diferente, ocupado com outros trabalhos. E vou confessar uma coisa: é muito difícil trabalhar em grupo nessa Bahia de vaidades. Hoje não tenho vontade de reunir grupo para retornar ao assunto. Esgotei. Antes tinha que liderar tudo: escrever, reunir a imprensa, procurar local para expor, tudo. A maioria dos "artistas" ficava esperando tudo pronto. E continua assim.
É preciso que as pessoas assumam responsabilidades, o que acho difícil aqui na nossa terra. Profissionalismo é coisa de poucos. Mas chega de desabafo! E um alerta: quem deseja enveredar pelos quadrinhos é necessário ler muito, devorar tudo. Ter conhecimento de roteiro, desenho, a linguagem da arte sequenciada. Caso contrário vai ficar copiando artistas estrangeiros e nunca chegar a ter um estilo próprio.
(fim]
[ Atualmente Gutemberg está escrevendo "Erotismo e Pornografia nas Artes". Entregou è Editora o Balanço do Século XX, além de continuar pesquisndo e mapeando o humor gráfico na Bahia.]

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