Na
Era dos Quadrinhos também se destacou como uma bem sucedida publicação
em seu gênero quanto à periodicidade - um eterno desafio para
os editores que, invariavelmente, retira do seu bolso a quantia para bancar
a impressão. Foram exatos 37 números em sua primeira fase,
que circularam initerruptamente a cada mês, entre julho de 1970 e
julho de 1973. A segunda fase foi mais curta e durou apenas cinco números
publicados (de janeiro a maio de 1977).
Na primeira metade da década de 70, qualquer aficcionado por quadrinhos
sabia da existência do fanzine baiano. Apesar de ter "agitado"
as seções de cartas das principais revistas de quadrinhos
nos cinco anos em que circulou, Na Era dos Quadrinhos "desapareceu"
da história dos zines brasileiros - certamente pela "distância"
da Bahia em relação aos principais pólos editores.
Nesta entrevista, a Phenix procurou resgatar a importância de Gutemberg
Cruz, que hoje divide seu tempo entre o jornalismo e a carreira de historiador
baiano. Em 1997, quando cedeu 90% desta entrevista, preparava seu terceiro
livro, depois de já ter lançado dois livros voltados para
desenho e humor: O traço dos Mestres(lançado em 1993) e Feras
do Humor Baiano (Lage, Nildão e Setúbal), lançado em
1997 - ambos disponíveis em nossa Loja Virtual.
Gonçalo Junior: Quando nasceu a idéia do fanzine Na Era dos
Quadrinhos?
Gutemberg Cruz: No dia 25 de setembro de 1968, a Bahia começou
a participar do movimento de estudo das HQs com a fundação
do Clube da Editora Juvenil, assim denominado em homenagem aos primeiros
gibis juvenis. Junto com alguns jovens resolvemos difundir o hábito
de ler e analisar os quadrinhos no Brasil. Lançamos nossas pesquisas
no fanzine Na Era dos Quadrinhos. Foram publicados 37 números: de
julho de 1970 a julho de 1973, na sua primeira fase em mimeógrafo.
Outra atividade do Clube era realizar exposições.
GJ: Fato, aliás, pioneiro no estado, não?
GC: Pois é. Em 1970, montamos a I Exposição Norte e
Nordeste, no salão nobre do ICEIA. O tema abordado: A Importância
dos Quadrinhos. No debate, o professor Adroaldo Ribeiro Costa foi agraciado
com o título de presidente de honra da associação.
Em 71, na Biblioteca Central do Estado o tema da Mostra foi Os Quadrinhos
no Mundo. No ano seguinte, Os Quadrinhos no Brasil, também na Biblioteca
Central. Em 1976, no ICBA, Quadrinhos Baianos. A associação
programou palestras, aulas e cursos, além de levar as exposições
para outras cidades e divulgar melhor o fanzine.
GJ: O
que existia no mecado na época, como eram os fanzines?
GC: Na época, a Editora Brasil América (EBAL) era
uma das mais fortes do país lançando gibis de super-heróis
da Marvel e DC Comics e fazendo algumas tentativas no quadrinhos brasileiro,
principalmente no que se refere a quadrinização de grandes
romances. Tinha a Rio Gráfica Editora (hoje Globo) com quadrinhos
americanos e outras pequenas editoras lutando pelo nosso quadrinho. O
Na Era, único fanzine que tratava exclusivamente de quadrinhos
no estado procurava abordar todas as questões referentes às
HQs.
GJ: O
que acabou disseminando discussões e até o aparecimento
de outros zines...
GC: Sim, realmente. Anos mais tarde, alguns jovens que participaram
do Clube resolveram lançar seus próprios zines como o Focalizando
os Quadrinhos, editado por Jorge Antonio Ramos, do Clube Baiano Editorial
Juvenil e Aimar Aguiar com Nostalgia em Quadrinhos. Nessa época
começava a circular os fanzines Ficção-Intercâmbio
Ciência Ficção Alex Raymond, de Piracicaba, São
Paulo. O no 01 saiu em outubro de 1965; Historieta, de Oscar Kern em Porto
Alegre, e Boletim do Herói, de José Agenor Ferreira, de
Varginha, em Minas Gerais que só tomei conhecimento anos mais tarde.
Depois surgiram muitos outros.
GJ:
Parece-me que o Na Era foi um dos pioneiros em transformar uma "revista
de fã" num veículo de luta pelo quadrinho baiano e
brasileiro. Como isso aconteceu?
GC: Foi com o Na Era que surgiram as primeiras manifestações
conscientes no sentido de se construir HQ autenticamente nacional - e
popular. O quadrinhos baiano tomou fôlego com o surgimento do tablóide
A Coisa(editada por Gutemberg), do jornal Tribuna da Bahia. A Coisa foi
um seguimento natural do Na Era. Em pouco tempo o suplemento revelou novos
cartunistas e desenhistas de quadrinhos. Surgiu em agosto de 1975, enfrentando
diversos problemas com a censura e, por motivos internos do jornal, A
Coisa foi reduzida a uma página até sumir, em março
de 1976.
GJ: Teve até um episódio mais cômico que trágico
envolvendo o presidente Geisel...
GC: A Coisa surgiu no dia oito de agosto de 1975. Durante a semana
que antecedeu o lançamento, saíram chamadas na primeira
página do jornal Tribuna da Bahia anunciando a chegada do suplemento.
A primeira chamada teve problemas com a censura. O diagramador colocou
ao lado da notícia que anunciava o pronunciamento em cadeia de
rádio e de tevê que seria feito pelo presidente Ernesto Geisel,
um desenho anunciando A Coisa. Este desenho, feito por Lage, era um vaso
sanitário, de onde saía um balão com os dizeres "A
coisa vem aí" e utilizava a linguagem onomatopéica
para produzir o barulho d descarga "-splosh!". Isso foi o suficiente
para que os censores de plantão acusassem o jornal de estar desacatando
o presidente. Os jornalistas foram chamados para depor, afim de esclarecer
o episódio. Mesmo depois deste incidente, a direção
do jornal deu total liberdade à equipe do suplemento. Por motivos
econômicos, a partir do número 26 a direção
da Tribuna da Bahia decide acabar com o suplemento. A Coisa foi reduzida
para uma página, passando a ser publicada nas edições
de sexta-feira do jornal.
P:
Quantos números foram publicados?
GC: Saíram 32 números, com muito humor, quadrinhos
e informações. Durou oito meses, tempo suficiente para a
reunião dos cartunistas e discussão de novas idéias
e projetos. Em junho surgiu o nanico Coisa Nostra, com texto, cartuns
e quadrinhos. "O importante - diziam os editores - é que o
riso não fique na boca. Ele tem de dar uma chegadinha na consciência".
Coisa Nostra durou apenas quatro números. É nesse período
que o Clube da Editora Juvenil, já com o nome de Centro de pesquisa
de Comunicação de Massa realiza no ICBA a exposição
Quadrinhos Baianos com o objetivo de proporcionar uma maior visão
do desenho gráfico baiano, suas tendências e estilo.
GJ: Foi nessa época que você decidiu relançar seu
primeiro zine?
GC: Sim, sim. Em 1977, relançamos o Na Era dos Quadrinhos,
desta vez impresso em off set, mas que só durou cinco números.
Lutar pela colocação do quadrinho baiano no mercado, desenvolver
a criação de historietas em Salvador e fazer uma avaliação
das HQs feitas até aquela época foram objetivod do periódico,
que serviu de estímulo aos criadores, visando o desenvolvimento
da consciência quadrinhográfica.
GJ:
Há algum episódio nas suas "aventuras fanzinísticas"
que te mostrou o poder do fanzine diante de algum editor?
GC: De editor de revistas creio que não, mesmo com entrevistas
de vários desenhistas brasileiros, premiando inclusive um deles,
de São Paulo, Eduardo Carlos Pereira pela criação
de diversos personagens como Praça Atrapalhado, Dr. Estripa e outros
publicados pela Editora Super Plá, de Sampa. O prêmio era
para incentivar o artista e despertar no editor para o quadrinho feito
no Brasil.
GJ: O
movimento de vocês provocou alguma reação na Bahia?
GC: O Centro de pesquisa de Comunicação, preparando
estudos sobre quadrinhos, sua linguagem e importância, influenciou
bastante a imprensa baiana a ponto de levar o tradicional jornal A Tarde,
que antes só publicava estorietas estrangeiras, a abrir suas páginas
aos nossos quadrinhos. E, não só A Tarde, mas a Tribuna
da Bahia, Jornal da Bahia, Jornal de Salvador e O Mensageiro. Todos eles
começaram a se interessar um pouco mais pelos nossos quadrinhos.
Além disso, fazíamos palestras, debates nas escolas e bibliotecas
sobre o assunto para que as pessoas pudessem apreender mais o sentido
visual, a força da imagem nos meios de comunicação
de massa. Era preciso saber ler os quadrinhos, sua linguagem específica
e a sua importância no mundo.
GJ: Quais
as dificuldades mais comum a um editor de fanzine, principalmente na época
em que o Na Era foi editado?
GC: O fanzine tem uma circulação restrita a um número
bem pequeno de interessados, em parte devido à sua reduzida tiragem.
Tem mil dificuldades para vencer, o que causa geralmente a irregularidade
de publicação. Muitos são mimeografados, os que conseguem
ultrapassar a barreira dos primeiros números são impressos
em off set. O custo do papel e da impressão dificulta na maior
parte, a continuidade dessas publicações.
GJ:
Como era a mentalidade do pessoal que lia quadrinhos, na época?
GC:
Quando o Na Era foi editado quase não existiam articulistas sobre
o assunto na cidade. Eram poucos os que acreditavam na HQ no campo da
arte e/ou comunicação de massa. Todos os debates realizados
no Sul do país sobre a questão da arte seqüenciada
quase não chegava a Salvador. A informação era precária,
ainda por cima havia o preconceito contra os gibis. Muitos me tacharam
de "louco" e "infantil" por estudar e pesquisar HQ,
"coisa de criança" para eles. Hoje esse assunto está
superado. Quadrinho é visto como veículo de cultura de massa
e é estudado em Universidades, mesmo assim os problemas de custos
existem para se editar um fanzine, ou mesmo de qualidade da produção.
Lage, Setúbal e Valtério editaram a revista Pau-de-Sebo
e sentiram dificuldades na hora de fechar a edição por falta
de material de qualidade, ou seja, boas HQs e cartuns de nível.
Onde estão os novos autores? Fugiram da luta? Muitos deles, desanimados,
foram procurar abrigo na publicidade para sobreviverem.
GJ:
A que você atribui o bum dos fanzines nos anos 80? Facilidades tecnológicas
com a "massificação" da xerox ou uma ampliação
do movimento de quadrinistas e, conseqüentemente, uma necessidade
maior de divulgar suas reinvidicações e obras?
GC: O Brasil viveu o boom dos fanzines em meados dos anos 80 devido
a uma mudança de comportamento dos editores das grandes editoras.
Descobriu-se (tarde), que o público adulto é o grande consumidor
e, a partir daí, as bancas foram invadidas pelos quadrinhos de
luxo (mini série, graphic novel), coisa que já acontecia
na Europa há muito tempo. Esse fenômeno reativou muitos fãs
de quadrinhos a discutir e analisar o assunto através dos fanzines,
uma vez que a grande imprensa abria suas páginas para colunas de
HQ com outros enfoques. O quadrinho tornava-se complexo em suas temáticas,
saindo do enredo simplista e/ou maniqueísta para questionar os
valores humanos em suas diversas vertentes.
GJ: Transformações
que o Na Era apostou desde o início...
GC: Os fanzines retornaram com força e até aqui em Salvador,
você, Gonçalo Júnior lançou o Quadrinho Magazine,
mais tarde o Ballon. Creio que essa mudança de visão do
público alvo, o adulto, essa ampliação do mercado,
houve necessidade de reivindicação dos leitores e o fanzine
foi uma coisa fundamental. Com, o Plano Collor, muitos bons lançamentos
foram adiados e outros cancelados. Mas os desenhistas e roteiristas não
pararam. Uma boa parte da nova HQ produzida no país está
surgindo em revistas baratas, simples, os fanzines. Um bom exemplo disso
foi o ótimo Dundum, do Rio Grande do Sul ou mesmo os diversos trabalhos
de Marcati.
GJ: Qual a importância, hoje, para o quadrinho brasileiro?
GC: O fanzine é o canal de expressão de quem tem algo
a dizer, o que não pode ser publicado pelos meios convencionais
e/ou oficiais. Os fanzines têm papel relevante na difusão
de idéias contrárias às do stablishment. Publicação
alternativa, rebelde, sincera, enérgica e bem informada, é
o que se espera de um bom fanzine. A falta de reconhecimento da profissão
quadrinista, a pouca união entre desenhista, o pequeno mercado
de trabalho, a falta de apoio das grandes empresas e, principalmente,
a concorrência estrangeira são os principais problemas dos
nossos desenhistas e argumentistas.
GJ: Sem falar que os velhos problemas de nossos desenhistas ainda não
foram resolvidos...
GC: É sim. Somam-se a isso que falei um estreito e aviltado
mercado de trabalho que não permite ao desenhista viver de sua
produção artística, desmotivando o autor. O fanzine
nesse momento surge como estímulo aos novos criadores. Uma alternativa
não só para o leitor, mas também para o criador.
O fanzine Balão revelou nomes importantes para o quadrinho brsileiro
como Paulo Caruso, Luis Ge, Angeli, Laerte e outros.
GJ: E as falhas, quais os vícios e prejuízos dos fanzines
na formação do autor, já que nem sempre se consegue
uma visão crítica do próprio trabalho e o que deve
ser feito para superar isso?
GC: O quadrinhos subterrâneo, marginal, clandestino, paralelo
ou underground, embora varie ainda a sua conceituação definidora,
tem se manifestado como a participação de resistência
a um poder mais forteou como a contestação que seja os valores
aceitos e estabelecidos com irrelevante agressividade. Esse quadrinho
publicado em fanzine, na maioria das vezes, é livre para olhar
o mundo exterior sem pestanejar e para o mundo interior em moldes complexos
e místicos. É livre para ser poético e para ser obscuro.
É livre até mesmo para ensandecer. Risco, Vírus,
A Mosca, Boca, Roleta, Maturi, Meia Sola, Quadreca, Na Era entre outros
vieram juntar-se à cada vez mais numerosa trupe de underground
que aparece hje nas universidade e outros locais.
GJ: O que os fanzines precisam melhorar?
GC: Uma das falhas no trabalho de quadrinhos para fanzine é
a precariedade do material utilizado ou o não aprofundamento da
temática. Nossos criadores procuram um maior relacionamento com
a realidade social, o que é muito bom, mas, muitas vezes não
se aprofunda, faz a crítica superficial. Outros não trabalham
bem o traço, por ser underground, fazem trabalhos toscos, imaturos.
Muitos usam e abusam do sexo e violência para chamar atenção,
mas não questionam esses problemas sociais. É um vício
que pode ser superado. Quando o desenhista e/ou argumentista tem consciência
de sua obra ele sabe se está evoluindo ou não. Se ele costuma
ler muito (jornais, revistas, livros) vai ter uma visão ampla da
cultura do país, caso contrário será um mero repetidor
de fórmulas gastas.
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Entrevista Parte 2
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