+ Entrevista

Gutemberg Cruz
Parte 1

Contextualização e Apresentação


Mais de um quarto de século já se passou - foi quase no tempo das diligências -, quando o baiano Gutemberg Cruz lançou seu teimoso Na Era dos Quadrinhos, o fanzine. Aliás, na época, 1970, Gutemberg nem tinha idéia do que significava tal termo. Era, na verdade, apenas um jornalzinho mimeografado a álcool sobre história em quadrinhos. Na Era talvez seja o segundo zine brasileiro a tratar do assunto, fato histórico que não seria suficiente para lhe dar muita importância. Pelo contrário. O trabalho dessa publicação precisa com urgência ser reconhecido como um marco da imprensa alternativa brasileira.

Explica-se por diversos motivos. Gutemberg Cruz fez, com seu revolucionário zine, uma série de inovações que só seriam incorporadas em outras publicações do gênero no final da década. Entre elas, o fato de transformar o que seria uma revista de fã num veículo de divulgação e valorização do artista brasileiro (sem qualquer xenofobia); a discutir e buscar aprofundar a riqueza artística e o reconhecimento dos quadrinhos como arte; a realizar a Primeira Exposição de HQ do Norte Nordeste.

E não parou aí. Então um adolescente meio porralouca, Gutemberg fez predominar no fanzine seu talento nato que o transformaria num dos profissionais mais requisitados da Bahia: o jornalismo. O seu leitor era um privilegiado naqueles tempos, pois desfrutava de duas páginas com as últimas novidades do que acontecia no mercado brasileiro e até dos Estados Unidos e França - onde tinha leitores e correspondentes. Um marco. Na Era perseguia a novidade, o furo jornalístico, com entrevistas e artigos exclusivos. Mergulhar em suas páginas torna possível ter uma idéia exata do mercado de quadrinhos. Tudo que rolava, tava ali. Tinha de tudo, até - e muito - quadrinhos brasileiro.

Na Era dos Quadrinhos também se destacou como uma bem sucedida publicação em seu gênero quanto à periodicidade - um eterno desafio para os editores que, invariavelmente, retira do seu bolso a quantia para bancar a impressão. Foram exatos 37 números em sua primeira fase, que circularam initerruptamente a cada mês, entre julho de 1970 e julho de 1973. A segunda fase foi mais curta e durou apenas cinco números publicados (de janeiro a maio de 1977).

Na primeira metade da década de 70, qualquer aficcionado por quadrinhos sabia da existência do fanzine baiano. Apesar de ter "agitado" as seções de cartas das principais revistas de quadrinhos nos cinco anos em que circulou, Na Era dos Quadrinhos "desapareceu" da história dos zines brasileiros - certamente pela "distância" da Bahia em relação aos principais pólos editores. Nesta entrevista, a Phenix procurou resgatar a importância de Gutemberg Cruz, que hoje divide seu tempo entre o jornalismo e a carreira de historiador baiano. Em 1997, quando cedeu 90% desta entrevista, preparava seu terceiro livro, depois de já ter lançado dois livros voltados para desenho e humor: O traço dos Mestres(lançado em 1993) e Feras do Humor Baiano (Lage, Nildão e Setúbal), lançado em 1997 - ambos disponíveis em nossa Loja Virtual.

Gonçalo Junior: Quando nasceu a idéia do fanzine Na Era dos Quadrinhos?

Gutemberg Cruz: No dia 25 de setembro de 1968, a Bahia começou a participar do movimento de estudo das HQs com a fundação do Clube da Editora Juvenil, assim denominado em homenagem aos primeiros gibis juvenis. Junto com alguns jovens resolvemos difundir o hábito de ler e analisar os quadrinhos no Brasil. Lançamos nossas pesquisas no fanzine Na Era dos Quadrinhos. Foram publicados 37 números: de julho de 1970 a julho de 1973, na sua primeira fase em mimeógrafo. Outra atividade do Clube era realizar exposições.
GJ: Fato, aliás, pioneiro no estado, não?
GC: Pois é. Em 1970, montamos a I Exposição Norte e Nordeste, no salão nobre do ICEIA. O tema abordado: A Importância dos Quadrinhos. No debate, o professor Adroaldo Ribeiro Costa foi agraciado com o título de presidente de honra da associação. Em 71, na Biblioteca Central do Estado o tema da Mostra foi Os Quadrinhos no Mundo. No ano seguinte, Os Quadrinhos no Brasil, também na Biblioteca Central. Em 1976, no ICBA, Quadrinhos Baianos. A associação programou palestras, aulas e cursos, além de levar as exposições para outras cidades e divulgar melhor o fanzine.

GJ: O que existia no mecado na época, como eram os fanzines?
GC: Na época, a Editora Brasil América (EBAL) era uma das mais fortes do país lançando gibis de super-heróis da Marvel e DC Comics e fazendo algumas tentativas no quadrinhos brasileiro, principalmente no que se refere a quadrinização de grandes romances. Tinha a Rio Gráfica Editora (hoje Globo) com quadrinhos americanos e outras pequenas editoras lutando pelo nosso quadrinho. O Na Era, único fanzine que tratava exclusivamente de quadrinhos no estado procurava abordar todas as questões referentes às HQs.

GJ: O que acabou disseminando discussões e até o aparecimento de outros zines...
GC:
Sim, realmente. Anos mais tarde, alguns jovens que participaram do Clube resolveram lançar seus próprios zines como o Focalizando os Quadrinhos, editado por Jorge Antonio Ramos, do Clube Baiano Editorial Juvenil e Aimar Aguiar com Nostalgia em Quadrinhos. Nessa época começava a circular os fanzines Ficção-Intercâmbio Ciência Ficção Alex Raymond, de Piracicaba, São Paulo. O no 01 saiu em outubro de 1965; Historieta, de Oscar Kern em Porto Alegre, e Boletim do Herói, de José Agenor Ferreira, de Varginha, em Minas Gerais que só tomei conhecimento anos mais tarde. Depois surgiram muitos outros.

GJ: Parece-me que o Na Era foi um dos pioneiros em transformar uma "revista de fã" num veículo de luta pelo quadrinho baiano e brasileiro. Como isso aconteceu?
GC: Foi com o Na Era que surgiram as primeiras manifestações conscientes no sentido de se construir HQ autenticamente nacional - e popular. O quadrinhos baiano tomou fôlego com o surgimento do tablóide A Coisa(editada por Gutemberg), do jornal Tribuna da Bahia. A Coisa foi um seguimento natural do Na Era. Em pouco tempo o suplemento revelou novos cartunistas e desenhistas de quadrinhos. Surgiu em agosto de 1975, enfrentando diversos problemas com a censura e, por motivos internos do jornal, A Coisa foi reduzida a uma página até sumir, em março de 1976.

GJ: Teve até um episódio mais cômico que trágico envolvendo o presidente Geisel...
GC:
A Coisa surgiu no dia oito de agosto de 1975. Durante a semana que antecedeu o lançamento, saíram chamadas na primeira página do jornal Tribuna da Bahia anunciando a chegada do suplemento. A primeira chamada teve problemas com a censura. O diagramador colocou ao lado da notícia que anunciava o pronunciamento em cadeia de rádio e de tevê que seria feito pelo presidente Ernesto Geisel, um desenho anunciando A Coisa. Este desenho, feito por Lage, era um vaso sanitário, de onde saía um balão com os dizeres "A coisa vem aí" e utilizava a linguagem onomatopéica para produzir o barulho d descarga "-splosh!". Isso foi o suficiente para que os censores de plantão acusassem o jornal de estar desacatando o presidente. Os jornalistas foram chamados para depor, afim de esclarecer o episódio. Mesmo depois deste incidente, a direção do jornal deu total liberdade à equipe do suplemento. Por motivos econômicos, a partir do número 26 a direção da Tribuna da Bahia decide acabar com o suplemento. A Coisa foi reduzida para uma página, passando a ser publicada nas edições de sexta-feira do jornal.

P: Quantos números foram publicados?
GC: Saíram 32 números, com muito humor, quadrinhos e informações. Durou oito meses, tempo suficiente para a reunião dos cartunistas e discussão de novas idéias e projetos. Em junho surgiu o nanico Coisa Nostra, com texto, cartuns e quadrinhos. "O importante - diziam os editores - é que o riso não fique na boca. Ele tem de dar uma chegadinha na consciência". Coisa Nostra durou apenas quatro números. É nesse período que o Clube da Editora Juvenil, já com o nome de Centro de pesquisa de Comunicação de Massa realiza no ICBA a exposição Quadrinhos Baianos com o objetivo de proporcionar uma maior visão do desenho gráfico baiano, suas tendências e estilo.

GJ: Foi nessa época que você decidiu relançar seu primeiro zine?
GC:
Sim, sim. Em 1977, relançamos o Na Era dos Quadrinhos, desta vez impresso em off set, mas que só durou cinco números. Lutar pela colocação do quadrinho baiano no mercado, desenvolver a criação de historietas em Salvador e fazer uma avaliação das HQs feitas até aquela época foram objetivod do periódico, que serviu de estímulo aos criadores, visando o desenvolvimento da consciência quadrinhográfica.

GJ: Há algum episódio nas suas "aventuras fanzinísticas" que te mostrou o poder do fanzine diante de algum editor?
GC:
De editor de revistas creio que não, mesmo com entrevistas de vários desenhistas brasileiros, premiando inclusive um deles, de São Paulo, Eduardo Carlos Pereira pela criação de diversos personagens como Praça Atrapalhado, Dr. Estripa e outros publicados pela Editora Super Plá, de Sampa. O prêmio era para incentivar o artista e despertar no editor para o quadrinho feito no Brasil.

GJ: O movimento de vocês provocou alguma reação na Bahia?
GC:
O Centro de pesquisa de Comunicação, preparando estudos sobre quadrinhos, sua linguagem e importância, influenciou bastante a imprensa baiana a ponto de levar o tradicional jornal A Tarde, que antes só publicava estorietas estrangeiras, a abrir suas páginas aos nossos quadrinhos. E, não só A Tarde, mas a Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Jornal de Salvador e O Mensageiro. Todos eles começaram a se interessar um pouco mais pelos nossos quadrinhos. Além disso, fazíamos palestras, debates nas escolas e bibliotecas sobre o assunto para que as pessoas pudessem apreender mais o sentido visual, a força da imagem nos meios de comunicação de massa. Era preciso saber ler os quadrinhos, sua linguagem específica e a sua importância no mundo.

GJ: Quais as dificuldades mais comum a um editor de fanzine, principalmente na época em que o Na Era foi editado?
GC:
O fanzine tem uma circulação restrita a um número bem pequeno de interessados, em parte devido à sua reduzida tiragem. Tem mil dificuldades para vencer, o que causa geralmente a irregularidade de publicação. Muitos são mimeografados, os que conseguem ultrapassar a barreira dos primeiros números são impressos em off set. O custo do papel e da impressão dificulta na maior parte, a continuidade dessas publicações.

GJ: Como era a mentalidade do pessoal que lia quadrinhos, na época?
GC:
Quando o Na Era foi editado quase não existiam articulistas sobre o assunto na cidade. Eram poucos os que acreditavam na HQ no campo da arte e/ou comunicação de massa. Todos os debates realizados no Sul do país sobre a questão da arte seqüenciada quase não chegava a Salvador. A informação era precária, ainda por cima havia o preconceito contra os gibis. Muitos me tacharam de "louco" e "infantil" por estudar e pesquisar HQ, "coisa de criança" para eles. Hoje esse assunto está superado. Quadrinho é visto como veículo de cultura de massa e é estudado em Universidades, mesmo assim os problemas de custos existem para se editar um fanzine, ou mesmo de qualidade da produção. Lage, Setúbal e Valtério editaram a revista Pau-de-Sebo e sentiram dificuldades na hora de fechar a edição por falta de material de qualidade, ou seja, boas HQs e cartuns de nível. Onde estão os novos autores? Fugiram da luta? Muitos deles, desanimados, foram procurar abrigo na publicidade para sobreviverem.

GJ: A que você atribui o bum dos fanzines nos anos 80? Facilidades tecnológicas com a "massificação" da xerox ou uma ampliação do movimento de quadrinistas e, conseqüentemente, uma necessidade maior de divulgar suas reinvidicações e obras?
GC:
O Brasil viveu o boom dos fanzines em meados dos anos 80 devido a uma mudança de comportamento dos editores das grandes editoras. Descobriu-se (tarde), que o público adulto é o grande consumidor e, a partir daí, as bancas foram invadidas pelos quadrinhos de luxo (mini série, graphic novel), coisa que já acontecia na Europa há muito tempo. Esse fenômeno reativou muitos fãs de quadrinhos a discutir e analisar o assunto através dos fanzines, uma vez que a grande imprensa abria suas páginas para colunas de HQ com outros enfoques. O quadrinho tornava-se complexo em suas temáticas, saindo do enredo simplista e/ou maniqueísta para questionar os valores humanos em suas diversas vertentes.

GJ: Transformações que o Na Era apostou desde o início...
GC:
Os fanzines retornaram com força e até aqui em Salvador, você, Gonçalo Júnior lançou o Quadrinho Magazine, mais tarde o Ballon. Creio que essa mudança de visão do público alvo, o adulto, essa ampliação do mercado, houve necessidade de reivindicação dos leitores e o fanzine foi uma coisa fundamental. Com, o Plano Collor, muitos bons lançamentos foram adiados e outros cancelados. Mas os desenhistas e roteiristas não pararam. Uma boa parte da nova HQ produzida no país está surgindo em revistas baratas, simples, os fanzines. Um bom exemplo disso foi o ótimo Dundum, do Rio Grande do Sul ou mesmo os diversos trabalhos de Marcati.

GJ: Qual a importância, hoje, para o quadrinho brasileiro?
GC:
O fanzine é o canal de expressão de quem tem algo a dizer, o que não pode ser publicado pelos meios convencionais e/ou oficiais. Os fanzines têm papel relevante na difusão de idéias contrárias às do stablishment. Publicação alternativa, rebelde, sincera, enérgica e bem informada, é o que se espera de um bom fanzine. A falta de reconhecimento da profissão quadrinista, a pouca união entre desenhista, o pequeno mercado de trabalho, a falta de apoio das grandes empresas e, principalmente, a concorrência estrangeira são os principais problemas dos nossos desenhistas e argumentistas.

GJ: Sem falar que os velhos problemas de nossos desenhistas ainda não foram resolvidos...
GC:
É sim. Somam-se a isso que falei um estreito e aviltado mercado de trabalho que não permite ao desenhista viver de sua produção artística, desmotivando o autor. O fanzine nesse momento surge como estímulo aos novos criadores. Uma alternativa não só para o leitor, mas também para o criador. O fanzine Balão revelou nomes importantes para o quadrinho brsileiro como Paulo Caruso, Luis Ge, Angeli, Laerte e outros.

GJ: E as falhas, quais os vícios e prejuízos dos fanzines na formação do autor, já que nem sempre se consegue uma visão crítica do próprio trabalho e o que deve ser feito para superar isso?
GC:
O quadrinhos subterrâneo, marginal, clandestino, paralelo ou underground, embora varie ainda a sua conceituação definidora, tem se manifestado como a participação de resistência a um poder mais forteou como a contestação que seja os valores aceitos e estabelecidos com irrelevante agressividade. Esse quadrinho publicado em fanzine, na maioria das vezes, é livre para olhar o mundo exterior sem pestanejar e para o mundo interior em moldes complexos e místicos. É livre para ser poético e para ser obscuro. É livre até mesmo para ensandecer. Risco, Vírus, A Mosca, Boca, Roleta, Maturi, Meia Sola, Quadreca, Na Era entre outros vieram juntar-se à cada vez mais numerosa trupe de underground que aparece hje nas universidade e outros locais.

GJ: O que os fanzines precisam melhorar?
GC:
Uma das falhas no trabalho de quadrinhos para fanzine é a precariedade do material utilizado ou o não aprofundamento da temática. Nossos criadores procuram um maior relacionamento com a realidade social, o que é muito bom, mas, muitas vezes não se aprofunda, faz a crítica superficial. Outros não trabalham bem o traço, por ser underground, fazem trabalhos toscos, imaturos. Muitos usam e abusam do sexo e violência para chamar atenção, mas não questionam esses problemas sociais. É um vício que pode ser superado. Quando o desenhista e/ou argumentista tem consciência de sua obra ele sabe se está evoluindo ou não. Se ele costuma ler muito (jornais, revistas, livros) vai ter uma visão ampla da cultura do país, caso contrário será um mero repetidor de fórmulas gastas.

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