+ Entrevista
Flávio Luiz
Flávio Luiz é cartunista premiado diversas vezes em salões nacionais e internacionais com destaque para o Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 1994, na categoria Cartum; e em 2000, em Charge. Recebeu o Prêmio HQMix 1999 como autor independente, com a revista Jayne Mastodonte Adventures #1. Em 2002, ganhou o Prêmio Especial no I Festival Internacional de Cartoon da Suécia; e 4º lugar no Festival Internacional de Artes Gráficas de Foz do Iguaçu, em 2003. É autor das tirinhas Rota 66 e Jab, Um Lutador.

* Flávio é cartunista do jornal impresso Correio da Bahia(Salvador); * Em parceria com Gonçalo Junior, o cartunista acaba de lançar
"O MESSIAS" pela Editora Opera Graphica.


Entrevista em05/2006 foi feita por Wilton Bernardo
01) Oficina HQ: Flávio, Você acaba de lançar uma revista em Quadrinhos, a “Jayne Mastodonte no. 2”, 6 anos após
ter lançado a número 1. Você mais do que ninguém sabe o que é querer publicar, ser um autor independente, mas ter êxito. O seu novo lançamento é um sucesso por si só. O fato de você publicar já é um grande êxito pra você, para os quadrinhos brasileiros.
(por favor, comente sobre essa experiência de querer, publicar, e agora publicar de novo a número 2)

Flávio Luiz: Apesar de tanto tempo lutando para publicar ,o gosto da vitoria é o mesmo da primeira vez.Mesmo
sabendo de tantas dificuldades nao desisti, principalmente porque o que faço ,faço por amor e é a unica coisa que
quero fazer nessa vida mesmo com um mercado inexistente num primeiro plano como é o de salvador mas contando com a internet e muita dedicaçao para chegar aonde cheguei" o mundo não é só aqui"," tem de ir aonde o povo está"Esse tipo de coisa...A verdade é que além de reclamar, como todos que sonham em viver e fazer quadrinhos por aqui ,eu arregacei as mangas e tentei de todas as formas ser reconhecido .Mostrei meu trabalho pra agencias, editoras, jornais ,e acabei publicando de forma independente.Depois ,mesmo com premios e etc para lançar o numero 2 tive que recorrer a forma independente e buscar auxilio( como no caso do FAZCULTURA ) mesmo com todas as dificuldades e limitaçoes que isso representou...


Acima, revista Jayne Mastodonte No.2; Clique sobre imagem pra 1 página inteira.

02)
Oficina HQ: Você também tem a publicação do ótimo “Rota 66”. Como é a receptividade desse trabalho, que inclusive foi premiado com troféu HQ MIX? Fala-se muito sobre produzir tirinhas. Como é sua produção de tirinhas?

Flávio Luiz: Primeiramente,uma correção :Ganhei o HQMIX99 com o numero # 1 da Jayne Mastodonte. A tirinha
rota66 eu conseguí publicar por 3 anos no "Correio da Bahia". Alem de tê-la lançado num livrinho com 3 meses de
tiras anteriormente de forma também independente.A feitura das tiras era muito prazerosa e espero retoma-la em
breve. A produçao ,no meu caso ,se dava( e dá) da seguinte forma:Depois da criação dos personagens e dos aspectos sicologicos e personalidades que os definiram, eu sentava e criava umas 30 a 40 tiras pra só então partir pro desenho que era( são ) feitos na proporçao em que serão publicados no jornal mas num papel A3 e com pincel #2.As letras tambem na mão eu fazia( faço) com canetinhas descartaveis ou hidrocores.Tentava sempre ter uma margem de 8 a 12 semanas entre o que estava fazendo e o que era publicado.É oque gosto mais de fazer .Quando aas veses dava um branco ,eu aliviava o pensamento,dava uma volta ,escutava musica e pensava num "mote" que ajudasse a desentravar as idéias e sempre funcionou!!Claro que pra fazer uma tirinha ,vc precisa dominar os personagens e conhece-los a fundo para depois deixa-los resolver quaiquer problemas que surgissem . Digo que "é brincar de Deus"e espero regressar logo com outras tiras e
publica-las em livro!!


03) Oficina HQ: Como você vê o espaço do Quadrinista brasileiro? Você acha que apesar de jornais divulgarem matérias, de se encontrar nas bancas, de algumas escolas convidarem cartunistas freqüentemente pra expor ou participar de projetos pedagógicos, ainda há muito o que ser conquistado? Ainda se falta rever muita coisa no que
diz respeito a valorização e oportunidade?

Flávio Luiz:
A realidade brasileira nunca será como a Americana,Europeia ou Japonesa mas a qualidade de nossos artistas não deixa a desejar em nenhum desses mercados tanto que muitos artistas nacionais ,hoje em dia, vivem unicamente de trabalhos pra fora.A internet ajuda na divulgaçao e na obtençao de trabalhos .O problema é que, enquanto mercado consumidor, nunca teremos o habito de tratar os quadrinhos de forma tão séria e correta como
se faz lá fora .Basta viajar pra saber do que estou falando.No Brasil ,exceto nos centros mais urbanos e cosmopolitas, o quadrinho será sempre tratado como "coisa de criança". E mesmo nesses centros estou falando de uma parte da populaçao.Claro que o momento atual está melhor do que aalguns anos mas já tivemos outras épocas de melhor valorizaçao e visibilidade que depois "esfriaram".Meritos para vc ,por exemplo ,Wilton que atraves de um trabalho de formaçao de publico fazedor e leitor de quadrinhos tem colaborado para essa retomada dos melhores dias!!!.Alem disso,existem hoje outras formas de entretenimento( como os games e a propria internet) que roubam muito do potencial publico leitor.Por outro lado, essas formas de entretenimento tem usado os quadrinhos como fonte de inspiraçao.Enfim,mesmo com as dificuldades se o trabalho é bom e feito com profissionalismo ,ele consegue alguma projeção e retorno para quem o faz.


04) Oficina HQ: Você tem contato com outros cartunistas brasileiros? E baianos? Pode citar alguns dos quais você conheça o trabalho?

Flávio Luiz:
Tenho contato com muita gente que conhecí nesses mais de 20 anos trabalhando com isso.Idolos de infancia como Ziraldo,Mauricio,outros mais recentes ,Angeli,Laerte,Fernando Gonsales,Biratan,Edgar vasques, Spacca, Baptistão, Marcelo Campos ,Roger Cruz ,Renato Guedes...gente que conhecí em saloes de humor ,nas festas do HQmix...Alista é imensa e tem de tudo :cartunistas ,chargistas ,quadrinhistas,caricaturistas ,velha guarda ,jovem guarda ,a galera da Quanta academia de arte de São Paulo,A galera de BH do Bigjack studio, gente que conheço pela internet ,dos sites e fanzines ,cartunistas do Rio , artistas que trabalham pros EUA, idolos estrangeiros, Will Eisner( falecido recentemente) Aragonés, Joe Kubert, Mignola, Jim Lee, Ibanes, Eduardo Barreto, Alary, Ramon Bach e dezenas de outros não menos importantes !!Aqui em Salvador ,conheço todo mundo ou quase. Cau Gomes, Simanca, Cedraz e seu estudio, HectorSalas, Minêu, Hoisel, Aziz, Gentil, Nildão, W.Leão, Setubal, Luis Augusto e o meu brother no cartum , Rezende!!! outros que sei que conheço mas que não lembro o nome e/ou que pararam de desenhar pra ganhar dinheiro fazendo outras coisas ,aha,ah,ah!!!Além de outros como você, Wilton que tive a honra de conhecer agora !!

05) Oficina HQ:Quais são seus planos com a Jayne Mastodonte 2? Na vedade quero perguntar sobre a distribuição da Revista? Como o autor indepentende se vira pra distribuir seus quadrinhos?

Flávio Luiz:
    Adistribuiçao da Jayne está sendo feita aos poucos mas cobrirá os grandes centros com ofiz com a nimero #1 sendo que agora tenho um fotoblog onde as pessoas interessadas podem comprar diretamente comigo .Fiz o lançamento
,passeio pelas agencias de publicidade pra quem trabalhp e cujo tipo de profissional costuma comprar quadrinhos e mesmo em algumas bancas da cidade já deixei uma centena de exemplares...Claro que nada se compara as livrarias especializadas que existem em outros estados e que é onde realmente se vende quadrinhos no país( e mesmo fora)e para onde focarei mais a distribuição.
Acima, revista Jayne Mastodonte No.1, disponível no "Tabuleiro" do Oficina HQ.

06) Oficina HQ:O Oficina HQ está começando a distribuir quadrinhos de autores brasileiros. Começamos com suas Publicações, os livros do Gutemberg Cruz, Cedraz e do carioca Luimar. Com exceção de Gutemberg, todos lançando trabalhos novos. O que acha dessa iniciativa?

Flávio Luiz:
A iniciativa da Oficina é louvável e digna de prêmio tambem pois resolveu enfrentar um problema que mesmo eu julgava crônico( falta de publico consumidor em Salvador) e está conseguindo resultados e ajudando a
mudar o quadro. Oque é de vital importancia pra nós autores!


07) Oficina HQ:Apesar de acabar de lançar uma publicação nova, sabemos que você já tem novos projetos em andamento. Dá pra contar um pouquinho do que você está preparando?

Flávio Luiz:
Estou ,mesmo devagar,terminando a já anunciada BD (revista em formato e narrativa nos moldes europeus) do meu capoeirista Aú( devidamente registrado) e que espero seja o equivalente baiano ao Asterix francês ou Spirou ou TInTin belgas.Pode soar pretencioso mas se eu não acreditar nos meus sonhos ,quem há de?Quem teve a oportunidade de ver o material tem ficado bastante impressionado!!( postei alguma coisa dele no meu fotoblog - flavioluizcartum.fotoblog.uol.com.br). Alem do Aú ,mas só depois de termina-lo vou retomar a Rota66 pra lança-la em livro já que nao existe syndicate no Brasil...

08) Oficina HQ:Flávio, você costuma ler quadrinhos também? O que te agrada? O quê te interessa em Quadrinhos? (Pode falar de trabalhos independente da época.)

Flávio Luiz:
Confesso que das "revistas de linha"nao acompanho nada ,a não ser os cometarios que saem na Wizard Brasil.Além disso sofremos com a distribuição setorizada que exatamente por priorizar os centros de maior consumo nos
deixa esperando por titulos que muitas veses se esgotam nesses centros e não chegam nunca a terrinha da felicidade
e do vixe mainha...Enfim , acabo recorrendo a internet pra adquirir coisas do meu tempo de 14 anos ou quando viajo e
aí sim "faço o estrago".A pouco tempo acompanhei o otimo trabalho de Kyle Baker na Plastic Man mas que já acabou , compro Lobo Solitario, o unico mangá que tenho paciencia de ler( desculpem-me os fans do gênero), algumas series encadernadas ou grandes classicos da Panini e tudo do Eisner,Mignola,Frank Miller,o Escapista de Michael Chabon -quem faz HQ tem que ler seu romance ganhador do Pulitzer!!-da Dark Horse,dos europeus ,Asterix ,mesmo não sendo nem sombra de menir da época de Goscinny, Belladonne de Alary, Spirou e Fantasio, La cronique des immortels, Le Scorpion ,Blacksad...coisas do Laerte,Angeli,Fernando Gonsales,Spacca, Gonçalo Jr, Cedraz...Parafraseando Erasmo de Roterdã:"Quando tenho algum dinheiro compro Gibis ,se aida me sobrar algum compro roupa e comida".


09) Oficina HQ:Conta pra nós sobre sua experiência. Quando tudo começou?

Flávio Luiz:
Desde pequeno dediquei meus momentos de lazer a ler ,não apenas gibis , a desenhar e assistir cartoons e seriados de tv.Fui e sou apesar de "enganar direitinho"um típico nerd .cuja timidez tambem disfarçada e pouco acreditada encontrou abrigo nesse "modus vivendi "citado acima.Acontece que continuei desenhando e tendo retorno profissional e pessoal vmesmo fazendo outras coisas e assim cheguei a meus 41 anos de gibis e muito rabisco!!


10) Oficina HQ:Sabemos que você passou um tempo fora do Brasil. As atividades ligadas aos quadrinhos continuaram lá? Fala um pouco do seu trabalho fora do país.

Flávio Luiz:
Passei um ano em Barcelona e para ter o visto de estudante me matriculei na escola de comics - Joso comics ,a melhor de lá mas onde fiquei só 3 meses já que o proprio diretor me sugeriu deixar a escola por me considerar" profissional demais"diante da maioria dos alunos e de certos professores que se incomodaram com meus toques -de caricatura .principalmente- pros colegas. Fiz alguns trabalhos de caricaturista em eventos e ilustrei alguns livros didaticoas mas tudo em OFF. Aconteçeram algumas coisas de ordem pessoal que mew impediram de continuar na europa e tive que regressar ao mercado soterropolitano que ,como de costume , já havia me esquecido.Tive que recomeçar do zero mas de novo me fiz notar,os prêmios continuaram a ser ganhos e as publicaçoes sairam do âmbito de meras promessas....

11) Oficina HQ:Percebe-se muita diferença entre a valorização e respeito que se dá pra os quadrinistas(ou cartunistas, como queiram) dentro e fora do Brasil? Fala um pouco.

Flávio Luiz:
    Já falei disso acima mas acho que tudo passa por um respeito e conhecimento do valor do trabalho de cartunista que nunca igualaremos por aqui e principalmente em Salvador.São habitos e prioridades que nunca passarão por ver o quadrinho como forma de arte tão importante como a literatura, cinema ...Aqui, pensamos mais com o quadril e, veja bem, não está errado quem pensa assim ,é apenas uma questao de adequaçao. Não quero ser o dono da verdade ou mudar a opiniao de ninguem .Nosso carnaval está aí pra mostrar "quanta gente está certa de pensar com a bunda" mas estamos falando de um lugar que deu Castro Alves,Jorge Amado ,Glauber ,Caetano e gil e tanta coisa boa mas que ficou meio"viciado "em alegria!!
Acima, revista Rota 66, com divertidas tiras, também disponível no "Tabuleiro" do Oficina HQ.

12) Oficina HQ:O que será que falta pra que se respeite mais o trabalho e os profissionais de Quadrinhos aqui(Brasil)? Será que falta os empresários encontrarem a forma de ganhar dinheiro ao patrocinar? (assim como acontece com as artes que ganham mais notoriedade ... traduzindo: investimento, apoio, verbas).

Flávio Luiz:
Como tenho dito no decorrer do que escrevo ,é uma questão de prioridade e de preferencia cultural.O Aú , por exemplo, já teve sua cota de re cusas de potenciais patrocinadores que assim como boa parte de quem consome cultura prioriza outras formas de cultura como musica Arrocha ou teatro besteirol com seus meritos e importancia pra quem gosta.Gasta-se 5 reais num cd pirata de psiricos e afins mas nao se gasta numa ediçao em capa dura de um trabalho sobre HQ mesmo com premios e o trabalho que dá pra produzir. Mas aí a gente não reclama pois não adianta nada e segue buscando quem goste e queira adquirir e valorizar esse tipo de cultura que a gente faz. Não tem jeito ou se tem não sou eu que quero dar .Faço minha parte e saudo os que como você compraram a briga por um mercado consumidor e apreciador de Quadrinhos.


13) Oficina HQ:Dá um recado pra a galera que quer publicar? Que admira essa arte.

Flávio Luiz:
Meu recado pra quem gosta e quer viver de HQ é um só: Faça por você antes de tudo , como esperar por grandes contratos e/ou premiaçoes. Se faça respeitar como profissional e saiba que apesar das dificuldades que encontrar e das inumeras sacanagens que viverá .pelo menos ao deitar no travesseiro sua alma estará em Paz . Pois é na verdade para consigo mesmo que está toda a realizaçao e felicidade de qualquer ser humano em
qualquer profissão.


14) Oficina HQ:Como é fazer "O MEssias" um trabalho que aborda violência e sua banalização. Para você, como artista e como cidadão, como é encarar essa temática em quadrinhos? e ao mesmo tempo, viver em tempos cruéis como esse onde paira injustiças, grandes diferenças, mas também muito engodo e promessas impossíveis e discursos genéricos e impessoais dos nossos políticos?

Flávio Luiz:
Amigo Wilton,Você sabe que meu forte é humor e aceitei esse trabalho serio e adulto do O MESSIAS por ser com o Gonçalo de quem sou amigo e admirador.Sempre acreditei no Quadrinho como agente de transformação e grande aliado para uma infancia ( e pelo resto da vida tambem)sadia e rica de experiencias e cultura, informaçao e formação de senso critico ,tudo isso. O Messias teria força tanto nos quadrinhos como no cinema ,romance literario , musica ,etc É uma historia forte e principalmnte rica de conteudo para entender e ajudar na percepçao dos dias de hoje e sua violencia banalizada ,da demagogia, culto a mediocridade ,celebridade sem estofo, enfim .Como cidadão ,artista e ser humano ,tanto eu como o Gonçalo ( ,autor do roteiro e que por ser jornalista é muuito mais indicado inclusive para abordar as questoes propostas ) fazemos o que está ao nosso
alcance para ajudar na denuncia do quadro de VIOLENCIA em que estamos inseridos.É o que podemos fazer. ...



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