01)
Oficina HQ: Flávio, Você acaba
de lançar uma revista em Quadrinhos, a “Jayne Mastodonte
no. 2”, 6 anos após
ter lançado a número 1. Você mais do que ninguém
sabe o que é querer publicar, ser um autor independente, mas
ter êxito. O seu novo lançamento é um sucesso
por si só. O fato de você publicar já é
um grande êxito pra você, para os quadrinhos brasileiros.
(por favor, comente sobre essa experiência de querer, publicar,
e agora publicar de novo a número 2)
Flávio
Luiz:
Apesar de tanto tempo lutando para publicar ,o gosto da vitoria é
o mesmo da primeira vez.Mesmo
sabendo de tantas dificuldades nao desisti, principalmente porque
o que faço ,faço por amor e é a unica coisa que
quero fazer nessa vida mesmo com um mercado inexistente num primeiro
plano como é o de salvador mas contando com a internet e muita
dedicaçao para chegar aonde cheguei" o mundo não
é só aqui"," tem de ir aonde o povo está"Esse
tipo de coisa...A verdade é que além de reclamar, como
todos que sonham em viver e fazer quadrinhos por aqui ,eu arregacei
as mangas e tentei de todas as formas ser reconhecido .Mostrei meu
trabalho pra agencias, editoras, jornais ,e acabei publicando de forma
independente.Depois ,mesmo com premios e etc para lançar o
numero 2 tive que recorrer a forma independente e buscar auxilio(
como no caso do FAZCULTURA ) mesmo com todas as dificuldades e limitaçoes
que isso representou...
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| Acima,
revista Jayne Mastodonte No.2; Clique sobre imagem pra 1 página
inteira. |
02) Oficina HQ: Você também
tem a publicação do ótimo “Rota 66”.
Como é a receptividade desse trabalho, que inclusive foi premiado
com troféu HQ MIX? Fala-se muito sobre produzir tirinhas. Como
é sua produção de tirinhas? Flávio
Luiz:
Primeiramente,uma correção :Ganhei o HQMIX99 com o
numero # 1 da Jayne Mastodonte. A tirinha
rota66 eu conseguí publicar por 3 anos no "Correio da
Bahia". Alem de tê-la lançado num livrinho com
3 meses de
tiras anteriormente de forma também independente.A feitura
das tiras era muito prazerosa e espero retoma-la em
breve. A produçao ,no meu caso ,se dava( e dá) da
seguinte forma:Depois da criação dos personagens e
dos aspectos sicologicos e personalidades que os definiram, eu sentava
e criava umas 30 a 40 tiras pra só então partir pro
desenho que era( são ) feitos na proporçao em que
serão publicados no jornal mas num papel A3 e com pincel
#2.As letras tambem na mão eu fazia( faço) com canetinhas
descartaveis ou hidrocores.Tentava sempre ter uma margem de 8 a
12 semanas entre o que estava fazendo e o que era publicado.É
oque gosto mais de fazer .Quando aas veses dava um branco ,eu aliviava
o pensamento,dava uma volta ,escutava musica e pensava num "mote"
que ajudasse a desentravar as idéias e sempre funcionou!!Claro
que pra fazer uma tirinha ,vc precisa dominar os personagens e conhece-los
a fundo para depois deixa-los resolver quaiquer problemas que surgissem
. Digo que "é brincar de Deus"e espero regressar
logo com outras tiras e
publica-las em livro!!
03) Oficina HQ: Como você
vê o espaço do Quadrinista brasileiro? Você acha
que apesar de jornais divulgarem matérias, de se encontrar
nas bancas, de algumas escolas convidarem cartunistas freqüentemente
pra expor ou participar de projetos pedagógicos, ainda há
muito o que ser conquistado? Ainda se falta rever muita coisa no
que
diz respeito a valorização e oportunidade?
Flávio Luiz:
A realidade brasileira nunca será como a Americana,Europeia
ou Japonesa mas a qualidade de nossos artistas não deixa
a desejar em nenhum desses mercados tanto que muitos artistas nacionais
,hoje em dia, vivem unicamente de trabalhos pra fora.A internet
ajuda na divulgaçao e na obtençao de trabalhos .O
problema é que, enquanto mercado consumidor, nunca teremos
o habito de tratar os quadrinhos de forma tão séria
e correta como
se faz lá fora .Basta viajar pra saber do que estou falando.No
Brasil ,exceto nos centros mais urbanos e cosmopolitas, o quadrinho
será sempre tratado como "coisa de criança".
E mesmo nesses centros estou falando de uma parte da populaçao.Claro
que o momento atual está melhor do que aalguns anos mas já
tivemos outras épocas de melhor valorizaçao e visibilidade
que depois "esfriaram".Meritos para vc ,por exemplo ,Wilton
que atraves de um trabalho de formaçao de publico fazedor
e leitor de quadrinhos tem colaborado para essa retomada dos melhores
dias!!!.Alem disso,existem hoje outras formas de entretenimento(
como os games e a propria internet) que roubam muito do potencial
publico leitor.Por outro lado, essas formas de entretenimento tem
usado os quadrinhos como fonte de inspiraçao.Enfim,mesmo
com as dificuldades se o trabalho é bom e feito com profissionalismo
,ele consegue alguma projeção e retorno para quem
o faz.
04) Oficina HQ: Você tem
contato com outros cartunistas brasileiros? E baianos? Pode citar
alguns dos quais você conheça o trabalho?
Flávio Luiz:
Tenho contato com muita gente que conhecí nesses mais de
20 anos trabalhando com isso.Idolos de infancia como Ziraldo,Mauricio,outros
mais recentes ,Angeli,Laerte,Fernando Gonsales,Biratan,Edgar vasques,
Spacca, Baptistão, Marcelo Campos ,Roger Cruz ,Renato Guedes...gente
que conhecí em saloes de humor ,nas festas do HQmix...Alista
é imensa e tem de tudo :cartunistas ,chargistas ,quadrinhistas,caricaturistas
,velha guarda ,jovem guarda ,a galera da Quanta academia de arte
de São Paulo,A galera de BH do Bigjack studio, gente que
conheço pela internet ,dos sites e fanzines ,cartunistas
do Rio , artistas que trabalham pros EUA, idolos estrangeiros, Will
Eisner( falecido recentemente) Aragonés, Joe Kubert, Mignola,
Jim Lee, Ibanes, Eduardo Barreto, Alary, Ramon Bach e dezenas de
outros não menos importantes !!Aqui em Salvador ,conheço
todo mundo ou quase. Cau Gomes, Simanca, Cedraz e seu estudio, HectorSalas,
Minêu, Hoisel, Aziz, Gentil, Nildão, W.Leão,
Setubal, Luis Augusto e o meu brother no cartum , Rezende!!! outros
que sei que conheço mas que não lembro o nome e/ou
que pararam de desenhar pra ganhar dinheiro fazendo outras coisas
,aha,ah,ah!!!Além de outros como você, Wilton que tive
a honra de conhecer agora !!
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05)
Oficina HQ:Quais são seus planos com
a Jayne Mastodonte 2? Na vedade quero perguntar sobre a distribuição
da Revista? Como o autor indepentende se vira pra distribuir
seus quadrinhos?
Flávio Luiz:
Adistribuiçao da Jayne está sendo feita aos poucos
mas cobrirá os grandes centros com ofiz com a nimero
#1 sendo que agora tenho um fotoblog onde as pessoas interessadas
podem comprar diretamente comigo .Fiz o lançamento
,passeio pelas agencias de publicidade pra quem trabalhp e cujo
tipo de profissional costuma comprar quadrinhos e mesmo em algumas
bancas da cidade já deixei uma centena de exemplares...Claro
que nada se compara as livrarias especializadas que existem
em outros estados e que é onde realmente se vende quadrinhos
no país( e mesmo fora)e para onde focarei mais a distribuição.
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| Acima,
revista Jayne Mastodonte No.1, disponível no "Tabuleiro"
do Oficina HQ. |
06)
Oficina HQ:O Oficina HQ está começando
a distribuir quadrinhos de autores brasileiros. Começamos
com suas Publicações, os livros do Gutemberg Cruz,
Cedraz e do carioca Luimar. Com exceção de Gutemberg,
todos lançando trabalhos novos. O que acha dessa iniciativa?
Flávio Luiz:
A iniciativa da Oficina é louvável e digna de prêmio
tambem pois resolveu enfrentar um problema que mesmo eu julgava
crônico( falta de publico consumidor em Salvador) e está
conseguindo resultados e ajudando a
mudar o quadro. Oque é de vital importancia pra nós
autores!
07) Oficina HQ:Apesar de acabar
de lançar uma publicação nova, sabemos que
você já tem novos projetos em andamento. Dá
pra contar um pouquinho do que você está preparando?
Flávio Luiz:
Estou ,mesmo devagar,terminando a já anunciada BD (revista
em formato e narrativa nos moldes europeus) do meu capoeirista Aú(
devidamente registrado) e que espero seja o equivalente baiano ao
Asterix francês ou Spirou ou TInTin belgas.Pode soar pretencioso
mas se eu não acreditar nos meus sonhos ,quem há de?Quem
teve a oportunidade de ver o material tem ficado bastante impressionado!!(
postei alguma coisa dele no meu fotoblog - flavioluizcartum.fotoblog.uol.com.br).
Alem do Aú ,mas só depois de termina-lo vou retomar
a Rota66 pra lança-la em livro já que nao existe syndicate
no Brasil...
08) Oficina HQ:Flávio,
você costuma ler quadrinhos também? O que te agrada?
O quê te interessa em Quadrinhos? (Pode falar de trabalhos
independente da época.)
Flávio Luiz:
Confesso
que das "revistas de linha"nao acompanho nada ,a não
ser os cometarios que saem na Wizard Brasil.Além disso sofremos
com a distribuição setorizada que exatamente por priorizar
os centros de maior consumo nos
deixa esperando por titulos que muitas veses se esgotam nesses centros
e não chegam nunca a terrinha da felicidade
e do vixe mainha...Enfim , acabo recorrendo a internet pra adquirir
coisas do meu tempo de 14 anos ou quando viajo e
aí sim "faço o estrago".A pouco tempo acompanhei
o otimo trabalho de Kyle Baker na Plastic Man mas que já
acabou , compro Lobo Solitario, o unico mangá que tenho paciencia
de ler( desculpem-me os fans do gênero), algumas series encadernadas
ou grandes classicos da Panini e tudo do Eisner,Mignola,Frank Miller,o
Escapista de Michael Chabon -quem faz HQ tem que ler seu romance
ganhador do Pulitzer!!-da Dark Horse,dos europeus ,Asterix ,mesmo
não sendo nem sombra de menir da época de Goscinny,
Belladonne de Alary, Spirou e Fantasio, La cronique des immortels,
Le Scorpion ,Blacksad...coisas do Laerte,Angeli,Fernando Gonsales,Spacca,
Gonçalo Jr, Cedraz...Parafraseando Erasmo de Roterdã:"Quando
tenho algum dinheiro compro Gibis ,se aida me sobrar algum compro
roupa e comida".
09) Oficina HQ:Conta pra nós
sobre sua experiência. Quando tudo começou?
Flávio Luiz:
Desde
pequeno dediquei meus momentos de lazer a ler ,não apenas
gibis , a desenhar e assistir cartoons e seriados de tv.Fui e sou
apesar de "enganar direitinho"um típico nerd .cuja
timidez tambem disfarçada e pouco acreditada encontrou abrigo
nesse "modus vivendi "citado acima.Acontece que continuei
desenhando e tendo retorno profissional e pessoal vmesmo fazendo
outras coisas e assim cheguei a meus 41 anos de gibis e muito rabisco!!
10) Oficina HQ:Sabemos que você
passou um tempo fora do Brasil. As atividades ligadas aos quadrinhos
continuaram lá? Fala um pouco do seu trabalho fora do país.
Flávio Luiz:
Passei
um ano em Barcelona e para ter o visto de estudante me matriculei
na escola de comics - Joso comics ,a melhor de lá mas onde
fiquei só 3 meses já que o proprio diretor me sugeriu
deixar a escola por me considerar" profissional demais"diante
da maioria dos alunos e de certos professores que se incomodaram
com meus toques -de caricatura .principalmente- pros colegas. Fiz
alguns trabalhos de caricaturista em eventos e ilustrei alguns livros
didaticoas mas tudo em OFF. Aconteçeram algumas coisas de
ordem pessoal que mew impediram de continuar na europa e tive que
regressar ao mercado soterropolitano que ,como de costume , já
havia me esquecido.Tive que recomeçar do zero mas de novo
me fiz notar,os prêmios continuaram a ser ganhos e as publicaçoes
sairam do âmbito de meras promessas....
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11)
Oficina HQ:Percebe-se muita diferença
entre a valorização e respeito que se dá
pra os quadrinistas(ou cartunistas, como queiram) dentro e fora
do Brasil? Fala um pouco.
Flávio Luiz:
Já
falei disso acima mas acho que tudo passa por um respeito e
conhecimento do valor do trabalho de cartunista que nunca igualaremos
por aqui e principalmente em Salvador.São habitos e prioridades
que nunca passarão por ver o quadrinho como forma de
arte tão importante como a literatura, cinema ...Aqui,
pensamos mais com o quadril e, veja bem, não está
errado quem pensa assim ,é apenas uma questao de adequaçao.
Não quero ser o dono da verdade ou mudar a opiniao de
ninguem .Nosso carnaval está aí pra mostrar "quanta
gente está certa de pensar com a bunda" mas estamos
falando de um lugar que deu Castro Alves,Jorge Amado ,Glauber
,Caetano e gil e tanta coisa boa mas que ficou meio"viciado
"em alegria!!
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| Acima,
revista Rota 66, com divertidas tiras, também disponível
no "Tabuleiro" do Oficina HQ. |
12)
Oficina HQ:O que será que falta pra que
se respeite mais o trabalho e os profissionais de Quadrinhos aqui(Brasil)?
Será que falta os empresários encontrarem a forma
de ganhar dinheiro ao patrocinar? (assim como acontece com as artes
que ganham mais notoriedade ... traduzindo: investimento, apoio,
verbas).
Flávio Luiz:
Como
tenho dito no decorrer do que escrevo ,é uma questão
de prioridade e de preferencia cultural.O Aú , por exemplo,
já teve sua cota de re cusas de potenciais patrocinadores
que assim como boa parte de quem consome cultura prioriza outras
formas de cultura como musica Arrocha ou teatro besteirol com seus
meritos e importancia pra quem gosta.Gasta-se 5 reais num cd pirata
de psiricos e afins mas nao se gasta numa ediçao em capa
dura de um trabalho sobre HQ mesmo com premios e o trabalho que
dá pra produzir. Mas aí a gente não reclama
pois não adianta nada e segue buscando quem goste e queira
adquirir e valorizar esse tipo de cultura que a gente faz. Não
tem jeito ou se tem não sou eu que quero dar .Faço
minha parte e saudo os que como você compraram a briga por
um mercado consumidor e apreciador de Quadrinhos.
13) Oficina HQ:Dá um recado
pra a galera que quer publicar? Que admira essa arte.
Flávio Luiz:
Meu
recado pra quem gosta e quer viver de HQ é um só:
Faça por você antes de tudo , como esperar por grandes
contratos e/ou premiaçoes. Se faça respeitar como
profissional e saiba que apesar das dificuldades que encontrar e
das inumeras sacanagens que viverá .pelo menos ao deitar
no travesseiro sua alma estará em Paz . Pois é na
verdade para consigo mesmo que está toda a realizaçao
e felicidade de qualquer ser humano em
qualquer profissão.
14) Oficina HQ:Como é fazer
"O MEssias" um trabalho que aborda violência e sua
banalização. Para você, como artista e como
cidadão, como é encarar essa temática em quadrinhos?
e ao mesmo tempo, viver em tempos cruéis como esse onde paira
injustiças, grandes diferenças, mas também
muito engodo e promessas impossíveis e discursos genéricos
e impessoais dos nossos políticos?
Flávio Luiz:
Amigo
Wilton,Você sabe que meu forte é humor e aceitei esse
trabalho serio e adulto do O MESSIAS por ser com o Gonçalo
de quem sou amigo e admirador.Sempre acreditei no Quadrinho como
agente de transformação e grande aliado para uma infancia
( e pelo resto da vida tambem)sadia e rica de experiencias e cultura,
informaçao e formação de senso critico ,tudo
isso. O Messias teria força tanto nos quadrinhos como no
cinema ,romance literario , musica ,etc É uma historia forte
e principalmnte rica de conteudo para entender e ajudar na percepçao
dos dias de hoje e sua violencia banalizada ,da demagogia, culto
a mediocridade ,celebridade sem estofo, enfim .Como cidadão
,artista e ser humano ,tanto eu como o Gonçalo ( ,autor do
roteiro e que por ser jornalista é muuito mais indicado inclusive
para abordar as questoes propostas ) fazemos o que está ao
nosso
alcance para ajudar na denuncia do quadro de VIOLENCIA em que estamos
inseridos.É o que podemos fazer. ...
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