+ Entrevista
Cedraz

Cedraz é natural de Miguel Calmon(Bahia),
O artista publicou trabalhos nos principais jornais da capital baiana
(A Tarde, Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia e outros)

Com seus desenhos, Cedraz ganhou prêmios e menções honrosas
em concursos e exposições no Brasil e exterior, entre eles o troféu
como destaque no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos,
realizado em Araxá (MG), em 1989, e o prêmio HQ MIX de melhor
álbum infantil de 1999, com o livro A Turma do Xaxado.

A entrevista foi cedida ao Oficina HQ
em 23/08/2005 foi feita por Wilton Bernardo
1) Oficina HQ: Como sabemos que você está cheio de novidades, vamos começar perguntando sobre isso.
O que o Estúdio CEDRAZ está trazendo de novidade pra nós? Estamos sabendo que tem lançamento de
novas histórias?

Cedraz: Além de Xaxado Ano 2, vamos publicar, ainda este ano, outros livros; Lendas e Mistérios da Turma do
Xaxado (com histórias da turma contracenando com figuras do folclore), A história do Pelourinho em quadrinhos, Histórias Fantásticas da Turma do Xaxado (coleção de 6 livros), Turma do Xaxado vol. 4 e a reedição dos livros Turma do Xaxado vol. 1 e 2. Pretendemos publicar uma revistinha da turma para venda em escolas e bancas. UFA!


2) Oficina HQ: Você é um cara que está na estrada há muito tempo. Conta pra nós quantos anos de carreira você tem e desde quando você gosta de Quadrinhos? Você desenhava e lia quadrinhos quando pequeno?

Cedraz: Comecei a me interessar por desenhos aos 16 anos e hoje já completei 60 anos de idade. Dá para imaginar o tempo que estou na estrada. Quando eu era pequeno não conhecia quadrinhos, nem livros. Eu morava numa vila muito pequena e só após os 12 a 14 anos é que fui para uma cidade onde conheci essas novidades e confesso que me apaixonei. Eram três coisas que me fascinavam; Quadrinhos, Cinema e livros.

3) Oficina HQ: Se você lia, conta quais eram os personagens de quadrinhos ou de TV que você curtia. Quais eram suas referências. O que curtia ver ou ler? Hoje os jovens que gostam de Quadrinhos admiram muito Frank Miller, Alan Moore, por exemplo. Quando você estava começando, haviam artistas específicos que você admirava?
Não me refiro a cópia, mas a admiração, leitura.

Cedraz: Meus personagens preferidos foram: Tarzan, histórias do faroeste, Superman e depois histórias desenhadas pelos brasileiros Orlando Pizzi, Ygaiara, Izomar, Edmundo Rodrigues, Getúlio Delfim etc.

4) Oficina HQ: E como foi trabalhar com Quadrinhos? Tirinhas? Você foi autodidata? Quando começou a publicar?
Conta pra nós essa história ai..

Cedraz: Poxa! Profissionalmente só comecei a desenhar já aqui em Salvador nos jornais A Tarde, e Jornal da Bahia. Cheguei a fazer 2 anos de Faculdade de Belas Artes mas por falta de tempo (era bancário e trabalhava 8 a 10 horas por dia) tive que abandonar o curso. Aprendi mesmo copiando e observando os grandes artistas dos quadrinhos.
Foi um desafio fazer tirinhas. No início achava que eu não ia dar conta mas depois de um período eu peguei
a manhã e me saí bem. Atualmente não faço sozinho as tiras diárias do Xaxado.


5) Oficina HQ: Você faz um caminho bem diferente da maioria dos artistas que trabalham com quadrinhos uma vez que optou por criar seus personagens ao invés de trabalhar na produção de personagens americanos. Como foi essa Escolha. Sabemos que tem um preço em ir por este caminho. Qual o saúdo dessa escolha.
Cedraz: Acredito que foi a chance que apareceu. Na época que comecei ainda não tinha esse negócio de fazer
personagens de terceiros. Quase todo desenhista tinha seu personagem e comigo foi igual.


6) Oficina HQ: Sabemos que o desenvolvimento cultural de um país diz muito da cultura desse povo, da educação, da condição econômica social. Assim, as vezes eu penso sobre o desenvolvimento do Cinema brasileiro, da música.
Se observarmos a divulgação, o crescimento dessas duas artes, por exemplo, podemos observar que apesar de
estar a anos luz na frente dos quadrinhos, seu crescimento no que diz respeito a divulgação e valorização (dentro e fora do país) é recente. Somos um país que consome muito o que vem de fora. Você consegue, refletir sobre essa aceitação X produção nacional? Você acha que é fácil entender porque essas artes ainda estão nesse processo de conquistar seu próprio público? E os quadrinhos nesse contexto?
Cedraz: Realmente o povo brasileiro dá mais valor ao que vem de fora. Parece qua não temos auto-estima. Quando o povo brasileiro conseguir enxergar melhor a nossa cultura, teremos então um cinema e um quadrinho de primeira.
Com a aceitação da Turma do Xaxado está acontecendo uma coisa engraçada; parece que estão descobrindo esse sentimento de brasilidade. As escolas estão utilizando nossos personagens de um modo que me surpreende e é justamente por ser brasileiro. Será que nós autores também não temos culpa. Dificilmente um autor faz um filme ou uma história enaltecendo o nosso país. Certa vez um escritor baiano me falou que com o Xaxado eu jamais iria fazer sucesso, por ser nordestino. Graças a Deus a previsão dele não se concretizou.


7) Oficina HQ: Ainda sobre essa questão de produção nacional... conta pra nós como veio a idéias dos seus
personagens. Onde você começou a publicar? E hoje? Como seu trabalho é visto pela população?
Cedraz: Quando saí do banco, procurei o Sérgio Mattos, na época editor do caderno municípios de A Tarde.
Ele então me solicitou uma tira sobre o interior e eu me lembrei do Xaxado. Um personagem que eu tinha na gaveta.
Imediatamente fiz algumas tiras e ele começou a publicar duas vezes por semana. O sucesso veio logo e negociei para que ele saísse diariamente no caderno 2. Então comecei a dar vida aos outros personagens. Nessa fase eu já contava com o Sidney e o Tom Tom. Hoje o Xaxado está em livros, apostilas, jornais, inclusive em Porto Alegre, faculdades, escolas e em um monte de lugares. Só falta alguma empresa se interessar e licenciar a turminha.
Parece mentira, mas as histórias do Xaxado agradam tanto a criança como adulto. Recentemente uma mãe me
falou que quem ler as historinhas do Xaxado se apaixona.

8) Oficina HQ: Você produz suas revistas ou é alguma Editora que faz isso? Como é que funciona isso
profissionalmente?
Cedraz: A Editora Escala da S. Paulo já publicou Três séries de revistas – Turma do Xaxado em quadrinhos
(saíram 5 números), Brincadeiras da Turma do Xaxado (saíram 13 números e Colorindo a Turma do xaxado
(14 números). Atualmente tive que criar uma editora para editar meus livros. A coisa funciona assim: Produzo
as histórias e tiras e depois lanço em liros. As vezes conto com apoio do Programa Fazcultura do Governo e
as vezes publico com meu próprio dinheiro. As vendas se fazem em feiras de livros, escolas e atualmente estamos colocando em livrarias. Pretendo também fazer revistas de circulação nacional e também fazer distribuição dos livros para todo o Brasil.

9) Oficina HQ: Aqui em Salvador existem poucos artistas, profissionais, que eu saiba, desenvolvendo trabalho
voltado para quadrinhos. Além de você, tem o Luis Augusto que faz o Fala Menino. Tem o Gutemberg Cruz que
trabalhou muito estimulando essa arte. Você dialoga com esses profissionais? Conhece outros com quem possa estar discutindo, trocando idéias?
Cedraz: Além desses amigos que você falou nós temos outros bons artistas; Flávio Luiz, Leônidas Grego, Davi
Sales, Paulo Setúbal, Sidney Falcão, Hector Salas e muitos outros que esperam uma oportunidade. Sou amigo
de todos e sempre procuro conhecer novos colegas. Estou sempre aberto para conversar e trocar idéias.

10) Oficina HQ: Há exatamente 2 anos, o Oficina HQ, esse projeto cultural que tem o objetivo de promover
e estimular a valorização e produção das Histórias em Quadrinhos. Você esteve presente em nossa primeira
Exposição na EBEC Galeria de Arte, Salvador(2003) e participou de nossa mostra On line homenageando
a Mulher(2004). O que você acha desse projeto que tem realizado Cursos, Oficinas, Workshops e Exposições?
Cedraz: Aplaudo de pé e estou sempre disposto a colaborar e incentivar. Tenho uma idéia de fazer um álbum/revista
com a participação de vários quadrinhistas baianos. Será uma espécie de port-fólio com cerca de 5 páginas de
cada um.

11) Oficina HQ: Você tem um estúdio hoje com uma equipe. Conta pra nós como funciona o estúdio. Quando
você percebeu que estava precisando ampliar este espaço de trabalho, pois sabemos que o artista começa
sozinho, e de repente hoje, você toda uma equipe. A profissionalização e organização é importante. Sabemos
disso e gostaríamos de conhecer um pouco de como isso aconteceu e como funciona no Estúdio CEDRAZ.
Cedraz: Quando saí do banco, onde trabalhava, me aposentei a achei que estava na hora de criar um estúdio
profissional onde o cliente a as agências de publicidade pudessem encomendar uma simples ilustração até um
desenho animado. Então comprei uma sala, equipei com pranchetas e computadores e chamei meus parceiros,
que eu já conhecia, e já trabalhava comigo – o Sidney e o Tom Figueiredo. Depois veio o Victor e o Mariel.
O estúdio tem vida própria e se mantém com encomendas de revistinhas e ilustrações.

12) Oficina HQ: Sabemos que você já foi bastante premiado. Conta pra nós alguns dos prêmios e como os
internautas podem fazer pra conhecer mais da sua produção.
Cedraz: Os prêmios são a recompensa pelo trabalho desenvolvido. Foi surpresa o primeiro HQMIX e o título
de Mestre do Quadrinho Nacional. Depois vieram outros HQMIX (já são 4) Todos ganhos com a Turma do Xaxado.
Antes eu já tinha algumas mensões-honrosas e prêmios com outros trabalhos.

13) Oficina HQ: Você lê atualmente, algum trabalho de quadrinhos? Qual?
Cedraz: Leio mais histórias de artistas brasileiros. Compro sempre fanzines e revistas publicadas em várias
partes do Brasil. Você não imagina como tem gente boa por esse Brasil a fora. Quando vou as bancas e vejo
alguma revista de quadrinhos brasileiros eu compro logo.
Procuro sempre estar informado lendo resenhas na internet. Meu site de cabeceira é o UniversoHQ e o Bigorna.
Através desses sites me mantenho bem informado de tudo que se passa com as histórias em quadrinhos.
Deixei de comprar revista da Marvel/Dc e Mangas.

14) Oficina HQ: Cenário atual: Frank Miller no cinema; o mundo descobrindo os Mangas; a globalização
(que não é nova) mas com políticas culturais e ações que deixa claro a facilidade dos grandes se disseminarem
e a dificuldades dos pequenos conquistarem seu espaço. Como você vê o cenário atual? Você enxerga pontos
positivos? Quais as saídas para se começar, hoje? A internet é uma forte ferramenta, mas acredito que não é
uma saída tão simples e fácil, pois é preciso políticas culturais que não te façam produzir, oferecer sua obra
mas ganhar dinheiro também. O que você pensa disso tudo?
Cedraz: acho a intenet um fator importante na divulgação do nosso trabalho. Todo mundo tem que buscar
conquistar seu espaço. Tem que procurar estudar e divulgar seu trabalho. Devemos utilizar bem as mídias.
Quem quiser ver seu trabalho divulgado deve estar sempre atento para as oportunidades para divulgar.
Também tem que saber aproveitar as leis de incentivos. Aqui na Bahia tem uma lei que está me ajudando
bastante. É uma pena que a burocracia dificulta muito.

15) Oficina HQ: Muito obrigado pela entrevista. Gostaríamos que você finalizasse essa entrevista com um
recado para os internauta que prestigiam o Oficina HQ e que curtem Quadrinhos.

Cedraz: Quem agradece sou eu. O recado é o seguinte; Desenhe sempre, procure mostrar seu trabalho para
gente que entenda e possa lhe incentivar. Não desanime nunca. Busque seu sonho.
Quando eu era garoto, lá em Jacobina, eu sonhei e meti na cabeça que seria um autor de histórias em quadrinhos e hoje, depois de passar por várias decepções, dificuldades e outras atribulações, estou conseguindo ser reconhecido. Sonhe sempre mas tente realizar seu sonho, o que não é fácil.


+ Voltar para o início do link Entrevista