+ Entrevista
:: LUIS AUGUSTO ::

Janeiro - 2011

Antes de sua formatura em Arquitetura e Urbanismo, em 1994, o quadrinista Luis Augusto C. Gouveia já trabalhava com arte-educação em escolas da Bahia, inclusive, com crianças autistas. Como quadrinista, trabalhou com ZIRALDO, fazendo histórias para a revista O Menino Maluquinho, da Editora Abril, e publicou, em 1989, a tira LIU E O MÁGICO DO SOBACO, no Jornal A Tarde (Bahia). Em 1995, recebeu Menção Honrosa no 1o. Concurso Nacional de Histórias em Quadrinhos da Academia Brasileira de Artes (SP). Fez, também, ilustrações em N. York e desenho animado em São Paulo.


01) Oficina HQ: Luis, você é um dos quadrinistas que mais trabalham com a temática infantil, de uma forma muito peculiar, muito específica e cuidadosa. Então começo te perguntando como foi sua infância? 

Minha infância foi como a infância da maioria das pessoas que cresceram numa cidade grande. Cheia de sonhos, brincadeiras, histórias, medos, desafios, dúvidas, sentimentos de todo tipo e todos eles bem fortes, como sentem todas as crianças (mesmo que tantos adultos prefiram não reconhecer) mas com menos aventuras ao ar livre do que crianças precisam. Morava no meio de uma ladeira enorme e movimentada, entre o Iceia, no Barbalho, e as Sete Portas. Portanto nem dava pra curtir amizades na rua (tão movimentada e perigosa), então eu mergulhava na fantasia dos livros, dos gibis e desenhos animados... De onde nunca saí.

02) E como era a relação da criança Luis Augusto com as artes? Algumas crianças gostam de desenhar copiando, outras criando, outras já exercitam a produção de quadrinhos. Como foi contigo?

Amo quadrinhos desde muito pequenininho. Minha família sempre leu e consumiu gibis de todos os tipos e eu vivia cercado de pilhas de Pimentinha, Mônica, Almanaques Disney, Heróis da Tv, etc... Eram meus companheiros de tardes a fio! Eu aprendi a desenhar tentando colocar no papel meus personagens preferidos dos quadrinhos ou da tevê. Sempre gostei do desafio de não copiar, de encontrar o traço certo (sim, esse que, hoje, sei que nem existe) e fazer o Mickey, o Cebolinha ou o Superman do jeitinho que eu queria. Nesse exercício, fui entendendo como funciona a anatomia e a volumetria desses personagens. E a cada traço, eu me percebia mais seguro. Tem sido assim até hoje. Eu não tinha muita facilidade em desenhar dentro dos requadros dos quadrinhos, não entendia nada de perspectiva ou escorço, então preferia desenhar os personagens soltos nas páginas. E ia inventando histórias assim, colocando balões e palavras, antes mesmo de saber ler ou escrever!


03) Todos sabem que você já lançou diversos livros do Fala Menino e outros personagens abordando o universo infantil. Você já tem uma estrada, uma identidade. Por isso, antes de falar dessa trajetória, eu gostaria que você falasse um pouco de como foi a sua busca pra trabalhar com quadrinhos antes de se “encontrar” com o Fala Menino.


Eu mal tinha entrado na faculdade de Arquitetura da Ufba, qdo conheci o Ziraldo e apresentei a ele meu portifólio. Ele me chamou pra fazer parte da equipe da Zappin. Claro que fui. Coloquei a mochila nas costas e aluguei um quartinho no Rio. Fiquei 6 meses aprendendo a desenhar o menino da panela na cabeça, vendi roteiros mas acabei voltando para concluir meu curso aqui em Salvador. Não acreditava que houvesse espaço, mercado para quadrinhos e, de repente, meu destino na prancheta era mesmo desenhar projetos de casas ou coisas assim... Depois de idas e vindas, enquanto trabalhava como arte-educador em escolas de Salvador, ganhei uma menção honrosa num concurso de quadrinhos da Academia Brasileira de Artes, em São Paulo. Com esse estímulo, resolvi colocar a mochila nas costas e partir pros EUA. Fui aceito na Joe Kubert School of Cartooning and Graphic Arts, conheci muita gente lá. Conversei horas com o próprio Joe! Mas não tive como arcar com a anuidade do curso e do dormitório e acabei ficando um temponos States, fazendo freelas como ilustrador. Quem me deu a dica de criar uma comic strip foi o Neal Adams, quando viu trabalhos que eu fiz adaptando letras da MPB para meus alunos aqui em Salvador. Voltei ao Brasil e, no ano seguinte, surgiu o Lucas e o Fala Menino!


04) Você é fã do Super Homem. Isso me faz te perguntar qual é a sua relação com os outros quadrinhos. Hoje, você lê o quê? Lê super-heróis?

Sou fã do Superman desde que vi o filme do Richard Donner, quando eu tinha 7 anos. O personagem representava toda a liberdade que eu tanto precisava, como menino de cidade grande. Naquele ano, eu morava em São Paulo. Tinha deixado a Ladeira do Funil, no Barbalho, e mudado pro meio da neura paulistana. O último filho de Krypton trazia um ideal que me confortava, a idéia de tanto poder sendo usado para o bem. Sem mencionar a capacidade de voar! Ir aonde quiser, sem medo de ser atropelado, assaltado, roubado... Sem medo de ser feliz.
Eu amo quadrinhos. Até meados dos anos 90, eu comprava e guardava TUDO que fosse produzido em quadrinhos. Mas por questões de espaço (vazio na carteira), tive que escolher o que eu não saberia viver sem. E passei a colecionar apenas tirinhas de alguns autores que admiro e os quadrinhos do Superman (e adjacentes).


05) O que acha da proliferação e grande sucesso do manga?


Não sou conhecedor de Mangás. Nunca fui, sequer, seguidor de animes. Mas admiro demais o Tezuka. É dele o único personagem dos quadrinhos japoneses que sou fã: o Astroboy.
Gosto da idéia de uma cultura tão peculiar como a japonesa chegar assim, fortemente, a nós. Furando a hegemonia americana e chamando atenção pra tanta gente de que há (muita) vida inteligente, além da estadunidense. Até mesmo a nossa!


06) No Brasil não existe uma linha de estilo muito específica. Os profissionais que produzem pra o mercado brasileiro, em sua maioria tem um trabalho bem autoral. Será que isso dá uma falsa impressão de que “não vale a pena seguir esse caminho?”, “que é muito difícil?” 

Nossa indústria de quadrinhos não é organizada. Se o mercado não se organiza, não se sabe exatamente qual a linguagem que mais se procura. Então cada um desenha do jeito que mais gosta, busca as referências que mais entende e aprecia. Isso traz variedade, mas ao mesmo tempo, nos dispersa. Em 96, conversando com alguém na Artcomix, em SP, me disseram que o estilo do (daquele) dia era o Jim Lee, então todo mundo que desenhava super-heróis, se quisesse ter uma chance de entrar no mercado, começava a imitar o JL. E uma linha de estilo se formava... Nos anos 80, o sucesso nacional da Editora Circo, trazendo Laerte, Glauco, Angeli, Gonzales... fez crescer uma geração de seguidores desse estilo de cartum mais underground... E por aí, vai. Hoje, estamos sem um grande sucesso nacional. Não temos mais a Circo, o Pasquim, o Estúdio Abril da Disney... Não temos mais uma indústria nacional de quadrinhos. A gente vê o sucesso de artistas como o Maurício de Sousa, a turma da Folha (Angeli, Laerte e o pessoal mais novo, também), vê os mangás, os heróis do Mike Deodato, do Roger Cruz... e vamos pulverizados atrás do estilo entre esses, que mais entendemos. O grande desafio, acredito, é criarmos, nós mesmos, este novo mercado. Só assim, vamos nos dar e poder exigir o respeito ao valor do nosso trabalho.


07) No que você está trabalhando atualmente? O que podemos esperar do Luis Augusto pra 2011? Vem novo lançamento de quadrinho? Ou trabalho dos personagens em algum outro suporte diferente da publicação?

Este ano estou mergulhado no mundo da animação com uma série de produtos envolvendo Lucas e cia. Lancei o Fala Menino!, um livrão todo a cores, por uma grande editora nacional. E estou com um livro bem autoral, sem a turma do Lucas, a ser lançado ainda neste semestre. Espero que, finalmente, ande nosso espetáculo teatral que tem produção do Fernando Guerreiro, roteiro meu e do Claudio Simões (Vixe Maria, Vingança, vingança, vingança, entre outros) e creio que vai dar o que falar pelas ousadias que toma. Além disso, lançarei um livro em quadrinhos com o Fala Menino! sobre homofobia, totalmente chutando o pau da barraca. Quero ver no que vai dar:)


08) As vezes eu me deparo com um tema, um assunto que me faz sentir uma vontade enorme de desenvolver aquela temática ou idéia em quadrinhos. Com você acontece também? Você tem algum personagem ou idéia de criar algo totalmente diferente da linha já desenvolvida ao longos dos anos (me refiro não a traço, mas a abordagem, foco de público)?

Sim. Vários projetos e várias idéias só esperando o momento certo de acontecer. Este ano teremos novidades com, pelo menos, dois deles.


09) Dos anos 80 pra cá, no Brasil, vimos os quadrinhos crescerem em publicação, em diversificação de conteúdo (levando também em conta o que vem de fora). Mas analisando a oferta pra o leitor, vimos a variedade aumentar, vimos os quadrinhos serem espremidos até sua retirada quase que total das bancas, e nas livrarias, disputarem em qualidade de produção com os livros (e muitas vezes ganhar). Consequentemente, preços aumentarem bastante. Vimos também a internet ganhar proporções assustadoras, no que diz respeito a atenção dos usuários. Agora, surgem os leitores de livros digitais, e a febre do iPad. Como você vê toda essa mudança e se vê como artista dentro desse contexto?

Os quadrinhos não morrerão. Mas nada é mais natural do que as mudanças de formato para nos adaptarmos aos novos tempos. Nos anos 30, a National Periodics (futura DC Comics) mudou tudo com o surgimento de revistas com histórias inéditas. Até então, eram apenas almanaques que republicavam as tiras dos "funnies", publicadas em jornais. Isso, que existia desde a primeira década do século XX, não era mais suficiente, o leitor queria mais e surgiram as revistas em quadrinhos como conhecemos. Logo depois, com o Superman (olha ele de novo), tudo foi reinventado novamente e os super-heróis invadiram a cultura popular... Hoje vivemos uma revolução informacial e temos que nos adaptar ou seremos como dinossauros. A arte se manterá, mas a HQ de papel, mais cedo ou mais tarde, vai sumir e dar lugar a coleções digitais para serem lidas em tablets, iphones, monitores de pc, etc... Sem falar que teremos outros recursos, cada vez mais tranquilamente. Vou adorar ler meu gibi digital do Superman e tocar na tela do Ipad pra ouvir o tema de Johm Williams, toda vez que o herói levantar vôo. Sem falar na possibilidade de acessarmos artes alternativas, painéis modificados, o lápis da capa, algum comentário do editor, etc...


10) Dá um recado pra a galera que quer ingressar na produção de quadrinhos e que admira essa arte.

Força pra somar o maior número de ferramentas. Estudar anatomia, perspectiva, literatura... Tudo isso é indispensável! Aproveitem o momento e integrem-se nas novidades de tecnologia para ajudar nas suas artes. E não tenham medo de apresentar o trabalho de vocês. Qualquer "não, obrigado" que vocês possam ouvir só vai fortalecer suas experiências e lhes dar parâmetros. E, mesmo assim, vocês não precisam concordar com nada. Basta entender que há outras formas de entender o que vocês criam. Acho que é só. Para o alto e avante!;)


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